terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Nos dez anos do Ladrões de Bicicletas


Neste 2017 que se aproxima agora do fim, o Ladrões de Bicicletas cumpriu dez anos de existência. Um excelente pretexto para fazer sair o «Economia com Todos», construído com capítulos de autores do blogue. Numa das sessões de lançamento, em Coimbra, o livro foi apresentado por José Reis, com um texto cuja partilha estava em falta e que publicamos hoje aqui.

Os Universos da Economia Política Culta: A propósito do livro «Economia com Todos»

São muitos os motivos para uma boa conversa quando estamos perante um trabalho «dos autores do blogue Ladrões de Bicicletas». Mas comecemos pelo livro, que foi ele que aqui nos trouxe. Ao lê-lo pareceu-me que se revela com razoável clareza que há um conjunto de grandes universos que povoam este texto coletivo. Sugiro três, a que resolvi dar primazia. O primeiro é o do estudo e do debate sobre o capitalismo. O segundo é o universo da economia política. E o terceiro é o das grandes ideias e linhas de pensamento, pontuado pelo conhecimento de grandes pensadores, que são para aqui chamados exatamente porque são grandes, mesmo que deles se divirja.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Das metáforas que não funcionam

Rui Tavares dedica a sua crónica do Público de hoje aos "vendilhões de apocalipses". Segundo o historiador, dizer que estamos a aproximar-nos da próxima crise financeira é o mesmo que anunciar que estamos mais perto do próximo grande terramoto de Lisboa - ambas as afirmações são óbvias, mas pouco úteis.

A metáfora soa bem, mas não funciona. Primeiro porque temos mais dados sobre a primeira do que sobre o segundo (o gráfico ao lado é bem ilustrativo do ponto onde estamos na euforia das bolsas). Depois, porque sabemos o que poderia ter sido feito para evitar o último colapso (em termos gerais, regulação financeira), o que não foi feito para evitar o que vem a caminho e a luta política que continua a ter de ser feita para travar a irracionalidade da finança liberalizada.

O nexo finança-habitação

No recente Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal (BdP) fica finalmente claro para o regulador o modelo em que assentou e continua assentar a economia portuguesa: um modelo baseado numa intrincada relação entre a finança e o imobiliário, por nós descrita num livro recente.

Se se celebra alguma recuperação da economia portuguesa e do sistema financeiro, também se identificam vulnerabilidades e riscos que advêm do elevado endividamento das empresas e famílias, que continua em níveis acima dos registados para o conjunto da União Europeia, e que ameaça a estabilidade do sistema financeiro.

Empréstimos de Empresas e Famílias em percentagem do PIB, 2016
Fonte: Eurostat

Embora reconheça que os incentivos vão em sentido contrário, o BdP limita-se a apelar ao bom senso das instituições financeiras, pedindo-lhes “que continuem a avaliar adequadamente e de forma prospetiva a capacidade de crédito dos mutuários, evitando a assunção de riscos excessivos nos novos fluxos de crédito, nomeadamente no crédito à habitação”.

A timidez daquele apelo surpreende perante a elevada exposição do sector financeiro ao mercado imobiliário, constituindo uma importante vulnerabilidade do sector bancário português, por via do elevado volume da concessão de empréstimos às famílias para compra de casa própria e às empresas dos sectores de construção e das actividades imobiliárias.

Como a crise mostrou, as dificuldades financeiras das famílias e das empresas destes sectores tiveram um impacto devastador no sector financeiro português, levando à acumulação involuntária de imóveis recebidos em dação e de unidades de participação em fundos de investimento imobiliário. Embora o sector comece agora a vender parte dos imóveis, estas transações ainda ocorrem abaixo do seu valor contabilístico e frequentemente com concessão de crédito perpetuando a sua dependência no imobiliário.

A atual especulação imobiliária é um sinal de alerta para as já conhecidas interdependências entre o imobiliário e a finança. Contudo, apesar do crescimento dos preços da habitação em 20%, em termos reais, entre 2013 e 2017, e do contraste deste com a evolução registada para a restante zona euro, 7%, o mesmo relatório de estabilidade financeira conclui que os indicadores apontam “para a ausência de sinais de sobrevalorização no mercado imobiliário residencial”, com a reserva de que tal resultado “não permite afastar a possibilidade de existirem apreciações excessivas em determinadas áreas geográficas, nomeadamente em grandes centros urbanos”.

É prudente notar que a análise de dados agregados pode esconder consideráveis variações. Se assim é para indicadores macroeconómicos, maior prudência se recomenda quando se analisa o sector do imobiliário. O mercado imobiliário residencial tem uma dimensão intrinsecamente geográfica que se perde na escala nacional, regional ou até municipal. Quer isto dizer que as “apreciações excessivas em determinadas áreas” são sinais inequívocos de sobrevalorização no mercado imobiliário residencial, com impactos já conhecidos nas vidas de muitos residentes e localidades. Observe-se a variação do valor das vendas (por metro quadrado) apenas no último ano e em Lisboa. Embora o preço tenha crescido cerca de 15% no município, este valor mediano acomoda variações que oscilam entre 3,4% e os 46,1%.

Taxa de variação homóloga do valor mediano das vendas por m2 
Lisboa e freguesias, 2º Trimestre 2017
Fonte: INE

Lidar com o nexo finança-habitação da economia portuguesa exige superar a complacência do BdP. Exige muito mais que o reforço da avaliação, por parte de instituições de crédito, da capacidade creditícia dos mutuários particulares. Exige políticas públicas de regulação robusta do sector bancário e exige políticas que desfinanceirizem o acesso à habitação por parte da população portuguesa, sobretudo nos meios urbanos mais expostos a este nexo. Exige intervir na provisão pública de habitação com rendas controladas. Esta última área é um dos principais desafios para a nova e bem intencionada Secretária de Estado da Habitação.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Do Consenso de Bruxelas


Tenham muita paciência e muita fé em Merkron, num alinhamento do bloco central europeu para realizar reformas que de alguma forma aproximem as economias de um Euro de resto já muito mudado da agilidade de referência das economias anglo-saxónicas nos ajustamentos.

Este é o meu breve resumo da algo arrastada, mas instrutiva, entrevista que Teresa de Sousa fez ontem no Público a Mário Centeno; na realidade, não foi bem uma entrevista, antes uma amena conversa entre dois euro-liberais, sem questões perturbadoras (já basta o espectro de populismos tão necessários...).

Creio que a conversa confirma a hipótese em que temos insistido: Centeno não terá grandes adaptações a fazer para ser um executor das políticas de sempre do Eurogrupo e do resto da tralha institucional do Consenso de Bruxelas, de resto, e esta é a verdadeira mudança no Euro, cada vez mais pesada e condicionadora da soberania democrática.

Desatento, na melhor das hipóteses

O suplemento de economia do Expresso deste fim-de-semana inclui uma entrevista com o economista Ricardo Reis acerca da economia portuguesa. O título, chamado à primeira página do suplemento, anuncia o veredicto: “Este ano não é óptimo em termos de crescimento. É medíocre, na melhor das hipóteses”. Fiquei intrigado: que critério seria este à luz do qual um crescimento real de 2,6% é considerado medíocre, na melhor das hipóteses? A experiência recente não seria certamente, já que este é o ano de mais forte crescimento desde 2000.

Fui ver. Explica então Ricardo Reis, logo no início da entrevista, que “Portugal está a crescer mais do que o esperado, mas continua a crescer abaixo da União Europeia”. Bem, isto seria um critério razoável, mas há um problema. É que embora a comparação seja relevante, a afirmação está errada: segundo as previsões de outono da Comissão, o crescimento económico na UE em 2017 será de 2,3% e na zona euro será de 2,2%.

Logo a seguir, porém, o entrevistado parece emendar a mão e introduz uma subtileza: “O resto da Europa está a crescer ainda mais acima do que tinham sido as previsões iniciais. Como tal, o desempenho económico não é particularmente bom”. Ou seja, o desempenho da economia portuguesa não é julgado positiva ou negativamente consoante seja melhor ou pior em termos absolutos; consoante seja melhor ou pior do que o passado recente; ou consoante seja melhor ou pior face à média europeia. Não: a bitola considerada apropriada é até que ponto o desempenho excedeu as previsões iniciais. Um bocado forçado, convenhamos.

Mas logo a seguir surge nova afirmação surpreendente: “As boas notícias são que este crescimento não está a vir do lado do estímulo da procura, mas si do turismo e das exportações”. Foi nesta altura que pensei que devemos estar a olhar para países diferentes. É que se é certo que as exportações, que incluem o turismo, têm tido um crescimento notável, as Contas Nacionais mostram bem que os contributos da procura interna e da procura externa líquida para o crescimento do PIB nos últimos trimestres não são de todo como refere o entrevistado:

(Fonte: INE)
Percebo que Ricardo Reis discorde do rumo do nosso país e que defenda políticas diferentes. Eu próprio acho que há aspectos que devem ser criticados e que podem ser melhorados. Mas recomenda-se um pouco mais de atenção aos factos. A não ser que o problema não esteja tanto na atenção aos factos mas antes, como afirma o próprio entrevistado a certa altura, no facto das coisas que os economistas afirmam serem muitas vezes “mais ideológicas do que científicas”.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Sem soberania monetária não há desenvolvimento


Uma intervenção de 2014 que continua actual.

Tendo em conta o tema da intervenção, aproveito para responder, sucintamente, às perguntas mais frequentes sobre a saída do euro, uma súmula que tenho vindo a divulgar no Facebook:

Dúvidas sobre a saída do euro
a) Contratos entre residentes
Todos os contratos realizados ao abrigo da legislação nacional são convertidos na nova moeda. Isto inclui depósitos bancários e contratos de crédito realizados pelos privados junto dos bancos residentes em Portugal.
b) Dívida pública emitida pelo Estado
Os títulos de dívida são convertidos na nova moeda caso tenham sido emitidos ao abrigo da legislação nacional (Lex Monetae - ver no Financial Times um artigo de Gilles Thieffry sobre a Grécia). O Banco de Portugal é retirado do sistema do euro por decreto do governo.
c) Dívida privada externa
Deveria manter-se em euros para não prejudicar as relações comerciais. O acréscimo nas dívidas resultante da desvalorização deve ser tratado segundo o tipo de empresa (Petrogral, EDP e outras, suportam o encargo porque também têm activos no estrangeiro que se valorizam; as médias empresas são apoiadas pelo Estado nesse diferencial).
d) Salários de funcionários e investimento público
Estão garantidos porque o défice orçamental é financiado pela emissão na nova moeda de títulos de dívida que os bancos estão interessados em comprar, ou por emissão monetária sem juros.
e) Pensões
Estão garantidas porque as pensões pagas em cada mês são financiadas pelos descontos efectuados mensalmente, o que não é problema com desemprego baixo. Se necessário, um défice do orçamento da segurança social é sempre coberto por uma transferência do orçamento do Estado. Tal como os salários, as pensões serão indexadas à inflação.
f) Financiamento das importações de bens essenciais
Não é problema sério porque as contas externas estão perto do equilíbrio. Ainda assim, para ter uma reserva de segurança em divisas, não será difícil obter crédito comercial externo contra garantia em ouro, ou outras contrapartidas, até que a desvalorização (acompanhada de outras políticas) consolide o equilíbrio da balança corrente. O ADB (Banco Asiático de Desenvolvimento) pode ser uma alternativa ao FMI.
g) Nacionalização dos bancos
Para garantir que o controlo dos movimentos de capitais não fica nas mãos dos actuais banqueiros, e também porque há bancos que ficam falidos com dívidas ao exterior em euros, o sistema bancário será recapitalizado e nacionalizado. Mais tarde, encontrar-se-á uma fórmula institucional que impeça os governos de partidarizarem as administrações dos bancos. O crédito voltará a ser controlado pelo Banco de Portugal.
h) Espanha e Argentina
Uma saída de Portugal do euro obrigaria a Espanha a fazer o mesmo para não perder mercados. Aliás, quando um país sair, outros irão atrás, tal como aconteceu na Europa dos anos 30 com o padrão-ouro. Ao contrário do que alguns afirmam para assustar as pessoas, a Argentina foi conduzida à bancarrota pelas políticas neoliberais, incluindo a decisão de fixar uma paridade irreversível com o dólar. A recuperação começou logo no segundo trimestre após a desvalorização do peso. A crise mais recente é outra história e confirma a ideia de que a saída do euro é uma condição necessária para o desenvolvimento do país, mas não é suficiente.
i) Moeda comum
Após a saída do euro, para os países que queiram participar, é possível organizar uma zona de “moeda comum” (moeda bancária para as relações com o exterior da zona), com câmbio ajustável periodicamente face à evolução das respectivas balanças externas. As moedas nacionais ficariam protegidas da especulação financeira internacional.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A Crato o que é de Crato

No ano passado, Nuno Crato tentou chamar a si os louros pelos resultados do PISA de 2015, que revelaram uma franca melhoria do desempenho escolar dos alunos portugueses. Para o ex-ministro, o sucesso alcançado era um reflexo das políticas que ele próprio adotara, em particular a introdução das «novas metas curriculares» e dos «exames finais» no 4º e 6º ano. Sucede, porém, como se demonstrou aqui, que não era sequer possível estabelecer essa relação de causalidade. Porquê? Porque os alunos avaliados pelo PISA, que iniciaram o seu percurso escolar em 2004/05, não chegaram a realizar os referidos exames nem foram abrangidos pelas metas curriculares. Ou seja, Crato estava «tecnicamente» impedido, logo à partida, de chamar a si o mérito ou demérito pelos resultados obtidos.

Ora, ao contrário do que se passou com o PISA de 2015, Nuno Crato está agora irrevogavelmente associado aos resultados do PIRLS de 2016, ontem divulgados. De facto, esta avaliação da literacia de leitura dos alunos do 4º ano, cujos testes decorreram no início de 2016 (com o atual governo em funções há apenas dois meses) recai sobre alunos que iniciaram a sua escolaridade em 2012/13 e comparam com os resultados do PIRLS de 2011, quando não havia «novas metas curriculares» nem «exame final» no 4º ano. E, convenhamos, a comparação não corre nada bem ao ex-ministro da direita PAF. Portugal não só passa de uma pontuação de 541 para 528 (sendo 500 o ponto intermédio de classificação), como desce da 19ª para a 30ª posição no ranking de países envolvidos. Ou seja, Portugal não só piora o seu desempenho como é «o país da Europa que mais caiu e o segundo que mais piorou», nos cinquenta países em análise.


Concretamente, o PIRLS avalia duas dimensões: a literacia literária (ler como experiência literária e de conhecimento) e a literacia informativa (ler para adquirir e utilizar informação). Finalidades que são cruzadas com níveis progressivos de desempenho em termos de processos de compreensão da leitura: Baixolocalizar e retirar informação de diferentes partes do texto»); Intermédiofazer inferências diretas»); Elevadofazer inferências e interpretações baseando-se no texto») e Avançadointegrar ideias e informação de vários textos para apresentar argumentos e explicações»). Sucede pois que entre 2011 e 2016 não só diminui a percentagem de alunos portugueses que atingem níveis de desempenho mais relevantes (de 9 para 7% no patamar «Avançado» e de 47 para 38% no patamar «Elevado»), como se inverte a posição relativa de Portugal face à média dos valores dos países avaliados. Se em 2011 registávamos percentagens comparativamente superiores nos níveis de desempenho mais significativos, essa situação inverte-se em 2016.


O que tem isto que ver com as opções educativas do ex-ministro Nuno Crato? Muito. Como referiu o Secretário de Estado da Educação João Costa na apresentação do PIRLS de 2016, estes dados refletem uma então «excessiva preocupação com os resultados e o produto e uma baixa preocupação com os processos», ao que acresce a imposição de uma «lista fechada de leituras» que os alunos tinham que fazer e uma lista «interminável de coisas que todos tinham que saber». Isto é, a desvalorização da aquisição de competências a troco de uma lógica de fixação de conteúdos, que compromete as aprendizagens e a versatilidade cognitiva associada à leitura.

Na resposta ao Secretário de Estado, contudo, Nuno Crato não só não resiste a enjeitar responsabilidades pela deterioração dos resultados dos alunos portugueses no PIRLS de 2016, como volta a sugerir, com total despudor, que os méritos do PISA de 2015 decorrem da sua visão da educação e das suas políticas educativas. Pior era impossível.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Denunciar mitos ruinosos


Na edição de Dezembro propomos uma análise crítica, feita por Ana Alves da Silva e Jean-Philippe Martin, do ruinoso mito das virtudes do empreendedorismo. Propagado em Portugal como em França e noutras paragens, ele esconde processos de desregulamentação do trabalho, de empobrecimento e de integração na crescente financeirização das economias. Reflectimos também sobre as políticas portuguesas de cooperação para o desenvolvimento (Ana Filipa Oliveira) e revisitamos os 25 anos do Teatro Meridional (César Madureira e Carla Baptista). No internacional, destaque para a terrível guerra no Iémen, olhando para os papeis dos actores regionais, e para o crescimento das direitas no Brasil. As escolhas de política do Estado chinês para explorar a sua inserção na globalização e o que se sabe afinal do «Russiagate», entre obsessões e paranóias de ingerências russas nos Estados Unidos e no mundo, são algumas das propostas que destacamos.

No sítio do jornal é possível ler os editoriais deste mês de Serge Halimi sobre as guerras religião e de Sandra Monteiro sobre o orçamento, o presente e o futuro. Não percam.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Vergonha

No debate parlamentar de hoje, a dirigente do CDS Assunção Cristas manifestou-se preocupada com a coesão social em Portugal, agravada com o facto de haver um número significativo de desempregados que já não recebe subsídio de desemprego.

Ora, é triste ver quadros políticos tão jovens e já tão cheios de desfaçatez, uma vez que não é crível que a ex-governante Assunção Cristas (de 2011 a 2015) se tenha esquecido do que fez o seu governo e o seu colega Pedro Mota Soares. A falta de vergonha deveria ser penalizada.

Como se recorda, em 2011, o Governo PS - com a colaboração activa do PSD e do CDS (recordem-se as declarações entusiásticas na altura de Eduardo Catroga, negociador do PSD) - assinou um Memorando de Entendimento que previa uma forte de redução do subsídio pago aos desempregados.

Fê-lo através de: 1) redução da duração do subsídio de mais de três anos para 18 meses; 2) redução do valor máximo do subsídio de desemprego de 3 para 2,5 IAS; 3) fim do valor mínimo do subsídio; 4) redução do valor do subsídio de desemprego em 10% passados 6 meses de atribuição do subsídio.

Essas medidas foram integradas, por iniciativa do governo PSD/CDS, no acordo de concertação social que trouxe a vaga pesada de austeridade, assinado a 12/1/2012. E os cortes no subsídio de desemprego foram muito bem vindos pelo Governo - do ponto de vista orçamental - quando nesse mesmo ano, em 2012, o governo se mostrou surpreso com a explosão do desemprego gerado pelas medidas de austeridade que a Direita sempre defendeu e quis até aprofundar através desse acordo de concertação social. "Nem tudo aconteceu exactamente como o esperado", afirmou Pedro Passos Coelho.

Na altura, não se ouviu ninguém falar do problema da coesão social. Assunção Cristas no governo aprovou e aplaudiu as medidas. E até o CDS, responsável pela pasta social, se veio vangloriar quando a troika - perante a montanha do desemprego que ainda hoje não foi absorvido - deixou que a duração do subsídio passasse de um máximo de 18 meses para 26 meses.

"Foi este Governo que contrariou a 'troika', foi este Governo que contrariou o que estava previsto no memorando de entendimento e conseguiu garantir que o subsídio de desemprego vá até aos 26 meses no caso dos trabalhadores com carreiras contributivas mais longas", dizia Pedro Mota Soares. Ou quando disse: “Estava escrito no memorando: todos os trabalhadores deviam ter subsídio no máximo de 18 meses independentemente da sua idade e da carreira contributiva”, recordou. “Isto não era socialmente aceitável, e foi por isso que contrariámos a troika e encontrámos uma solução do ponto de vista social mais defensável”.

Claro que agora, o "seu" subsídio de 26 meses é totalmente indefensável e o CDS ergue-se indignado, lastimando-se que os nossos pobres já não recebam subsídio por causa da "sua" alteração à lei... É assim. E é triste que tudo se mantenha na mesma.

Market Diktat song (By Jean-Philippe Goude)


Ainda Centeno. Lido

A zona Euro celebra a eleição do seu primeiro presidente do Eurogrupo do sul da Europa. Para alguns, a nomeação de Portugal do centro-esquerda Mário Centeno sinaliza uma vitória contra as políticas de austeridade numa instituição no centro das decisões cruciais no euro durante os últimos sete anos.

Dar o trabalho a um ministro proveniente de uma economia anteriormente resgatada e a um partido Socialista anti-austeridade tem, seguramente, uma enorme carga simbólica. Afinal de contas, o Eurogrupo é, há muito, acusado pelos seus críticos de um preconceito institucional que favorece a punição económica e de estar cativo dos interesses dos seus maiores credores da Europa do Norte (Alemanha, França. Holanda e restantes). (...)


No que diz respeito ao Sr. Centeno, as suas credenciais anti-austeridade também devem ser avaliadas com bastante cautela. O ministro das finanças de Portugal com tendências de esquerda superintendeu um esforço de consolidação orçamental que orgulharia a maioria dos alemães. Ao ganhar a presidência, o inexperiente político salientou que o seu trabalho consistia em assumir um papel neutral nas discussões que aí vêm - integração da zona euro e reestruturação da dívida grega - ao invés de promover as causas tradicionais da esquerda. (...)

Aqueles que esperam uma revolução no Eurogrupo não devem ainda suster a respiração.

Mehreen Khan, FT Brussels Briefing.

Estamos fritos?

O Negócios continha na segunda-feira várias análises sobre o que se julga saber acerca das ideias de Centeno para “a Europa” (felizmente, e ao contrário do que se depreende da manchete, há muito mais Europa para lá da desta prisão monetária). De todas as informações neste domínio, a novidade, que me pareceu tão relevante como outra coisa qualquer, é que o chamado Presidente do chamado Eurogrupo, de origem algarvia, gosta de cozinhar choquinhos fritos com tinta; um petisco, realmente.

Entretanto, e num plano talvez mais relevante, aproveito para relembrar que a tragédia da esquerda grega foi achar que as relações internacionais num quadro euro-imperialista eram uma espécie de debate entre parceiros em que vencia o melhor argumento. A farsa de parte da esquerda portuguesa é continuar a achar no fundo isso, somando-lhe agora a ilusão de que Centeno é um Cristiano Ronaldo das finanças que joga pelo nosso lado lá fora, como já afiançou Rui Tavares. A metáfora futebolística é de Schauble, lembre-se, e serve bem os propósitos ordoliberais alemães de nos fazer jogar pelas suas regras formais e informais, favorecendo os que estão sempre dispostos a fazê-lo.

No fundo, e mudando de metáfora, acho bastante mais adequada a fórmula de Pacheco Pereira, que tanto incomodou a sabedoria convencional: “será o mesmo que passar a ter como ministro das Finanças um general do exército inimigo”. Este realismo contrasta também com uma parte da esquerda portuguesa, que no fundo já só consegue pensar nos, e com os, termos do adversário. Assim também se explica a hegemonia do neoliberalismo nas suas várias versões, incluindo a de Centeno. Na boa lógica do Eurogrupo, que Varoufakis acabou por descrever de maneira brutalmente clara depois do golpe europeu e da rendição grega, esta terá força na medida em que estiver alinhada com Merkel e agora com Macron.

A informalidade do Eurogrupo serve o directório das grandes potências. A formalidade das restantes instituições europeias serve as regras políticas que de forma explícita expandem as forças de mercado à custa da soberania democrática de Estados nacionais desprovidos de instrumentos decentes de política, o que é pior para as periferias, claro. Felizmente por cá, como João Ferreira indica, há quem se rebele contra esta máquina bem montada pelos de cima. E não por acaso, são os mesmos que avisaram a tempo para as consequências da economia política de Maastricht para os de baixo. Se este tipo de posição tiver força, talvez não estejamos ainda fritos.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Boa sorte, Mário


Se os sociais-democratas [os que ainda sobrevivem na Europa] querem mesmo reformar a zona euro, então têm de resolver um problema que os economistas (que não têm conflito de interesses) consideram insolúvel dentro de uma zona com moeda única: o agravamento dos desequilíbrios comerciais, e o consequente endividamento dos países menos desenvolvidos para com os mais desenvolvidos, seus credores, desde a entrada na zona euro. Toda a periferia da zona euro se desindustrializou a partir daí, e mesmo a França saiu prejudicada. A Alemanha acumulou excedentes (e portanto créditos) enquanto as periferias foram acumulando défices (e portanto dívida aos excedentários).


Sabendo nós, pela história económica e também por dolorosa experiência (os gregos ainda mais, porque quiseram fazer deles um caso exemplar para meter medo aos outros), que a redução dos salários não é uma solução estrutural, aliás não é solução para nada e só debilita o país, fico à espera da solução reformista dos sociais-democratas para este problema.

Entretanto, há uma coisa que os economistas (sem conflito de interesses) sabem: sem política cambial, sem política industrial, sem política comercial externa e sem política orçamental com moeda soberana, até hoje nenhum país se desenvolveu.

Acho melhor esperarmos sentados por essa reforma da zona euro. Boa sorte, Mário.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Repescado

Sinceramente, ainda não consegui compreender esta ovação nacional à escolha de um ministro português e de ser Mário Centeno, actual ministro português das Finanças, para um posto num organismo inexistente e opaco na hierarquia institucional comunitária como é o eurogrupo.

Tal como Durão Barroso também era o nosso "português na Comissão Europeia" e acabou gordo no Goldman Sachs, Centeno não irá ser nem presidente, nem português, nem socialista, nem ministro das Finanças.

A partir deste momento, Centeno será - na prática - o embaixador no governo português dos governos conservadores que o apoiaram. Centeno sentar-se-á e tentará convencer o governo português das coisas com que se irá comprometer no seio do eurogrupo.
O seu discurso irá ter tantas nuances quantas pessoas que o influenciarão. Pela sua voz, ouviremos nalguns momentos o tom áspero da chanceler alemã, ou a voz artificial de Rajoy, ou o tom de pó de talco de Macron.

Se esta nomeação tem algum significado político, foi o de dar um novo peso político a Centeno dentro do governo português. E não será com os melhores fins. Ele não será a bissetriz: ele será a tentativa para que não haja necessidade de bissetriz. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa já veio avisar de que Portugal terá de dar o exemplo ao eurogrupo... O PSD já o colou ao velho programa de que até se quer esquecer agora, para mais tarde o aplicar: "Quem preside é o guardião das regras europeias".

Em vez de mais uma voz discordante da política seguida, em vez de uma forma de inverter verdadeiramente os "erros" da política de direita, em vez de uma verdadeira alteração da correlação de forças no eurogrupo, Centeno será o salvo conduto para salvar a cara dessa direita. Ele será a possibilidade efectiva de reformatar uma direita derrotada, dando-lhe o colorido que a esquerda conseguiu em Portugal e permitindo a transmissão da ideia de que até a esquerda segue as ideias da direita. Será mais um socialista a ser promovido para levar a cabo o que disse estar contra. Ou para levar a cabo a parte do contra do que Centeno disse defender, como é o dossier das políticas laborais de direita, em que Centeno se assemelha tanto a Macron, o que poderá ter alguma influência no seio do governo de esquerda ou entre o governo e os seus apoios parlamentares.

Na ausência de qualquer compromisso público para as suas novas funções, Centeno será - na prática - a nova cara da direita conservadora que, daqui a pouco, daqui a muito pouco, irá querer impor a velha receita do passado.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Sempre tivemos vários problemas


O texto de David Crisóstomo sobre a putativa ida de Mário Centeno para a chamada presidência do chamado Eurogrupo tem a virtude de avançar com uma hipótese que permite clarificar ainda mais a discussão, talvez contra a vontade do seu autor: “se Centeno nos amarrar [à austeridade] é porque se calhar até concorda com isso e então, más noticias camaradas, temos um problema no Ministério das Finanças agora”.

É claro, como David Crisóstomo saberá porventura melhor do que eu, que a esquerda sempre teve um problema real e outro potencial no Ministério das Finanças. A questão não é pessoal, claro, é antes político-institucional. Esta ida para o Eurogrupo só tornará esta realidade mais saliente, se bem que a razoável conjuntura num contexto de preferências adaptativas possa eventualmente permitir ir gerindo por cá as necessárias tensões.

Da erradamente chamada estabilização do sistema financeiro à quebra do investimento público, sempre tivemos um problema real que se manifesta também da saúde à educação, passando por outros serviços públicos sob pressão. Foi de resto por aqui que Centeno terá conquistado a confiança de quem manda a norte. Mais concretamente, logo por ter aceite que Portugal continuasse a ser uma cobaia bancária no caso Banif, mesmo alardeando a sua discordância. E lembrem-se do que Centeno, já em modo Dijsselbloem, disse sobre o sucesso que tem sido a Grécia.

Mas alguém tem alguma dúvida que Centeno fará o mesmo cá ou lá se tivermos outra crise da zona euro mais ou menos semelhante, independentemente de eventuais e irrelevantes estados de alma? Felizmente, temos evitado este problema potencial, mas convém não fiar num país periférico, frágil e vulnerável, brutalmente endividado em moeda estrangeira.

Por esforço realista, defendi no texto anterior que Centeno não terá de se adaptar muito ao peso das estruturas europeias e do directório das potências, de Merkel a Macron, que de resto já terá dado o seu sintomático assentimento. Não podemos perder de vista o seu perfil ideológico, incluindo as suas posições neoliberais em matéria laboral, que, já agora, imagino não sejam irrelevantes na falta de vontade governamental em superar a herança da troika e na confiança que tal gera nos erradamente chamados parceiros europeus (como se isto fosse um debate e entre iguais). Entretanto, é evidente que, em última instância, a força de Centeno no governo sempre foi função das regras que inscrevem o fundamental do Consenso de Bruxelas nas políticas públicas. O que apesar de tudo vai contra a sua lógica, da reposição dos feriados à subida do salário mínimo, tem sido resultado das pressões das esquerdas soberanistas.

Desculpem eventualmente contribuir para estragar a festa, mas estou mesmo farto dos danos que o voluntarismo europeísta, também patente na intervenção de hoje de António Costa, tem causado às esquerdas e sobretudo aos povos dos Estados que estas têm, supostamente, a obrigação de defender sempre.

Adenda. Aproveito para relembrar um texto premonitório de João Ramos de Almeida, de final de Maio, sobre um revelador artigo de Centeno no Público, que ganha em ser relido agora: “Vai dar com os burrinhos na água. E, pior do que tudo, nós também”.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Refundar boa parte da Esquerda


No dia 1 de Dezembro, Portugal comemora a recuperação da sua independência em 1640. Precisamente quando se encontra numa situação em que já não tem soberania desde 1992 com o Tratado de Maastricht (UEM). A ignorância do povo, quanto a esta situação paradoxal, é obra das suas elites, incluindo da esquerda europeísta. Por isso, considero que são meus adversários políticos todos os que defendem a manutenção de Portugal nesta condição de protectorado.

Mais, quem não defende a recuperação da soberania de Portugal, de facto aceita a farsa da pseudo-democracia em que vivemos. Quem é de esquerda não pode aceitar isto, tem de aceitar que o soberano é o povo português. Depois do que o Eurogrupo fez à Grécia, não há desculpas. Para mim, quem defende os poderes supranacionais existentes, e até o seu reforço, defende a política neoliberal e a redução do país à condição de província periférica de um império alemão juridicamente camuflado. E não me venham com a conversa da esperança numa reforma progressista "por dentro", nos "amanhãs que cantam" do neoliberalismo.

Precisamos de refundar uma boa parte da Esquerda, em Portugal e no resto da Europa, caso contrário ela desaparece. Se o meu leitor se considera de esquerda, então recomendo-lhe que encomende já o livro de que junto a imagem de capa. De seguida, traduzo alguns parágrafos de um artigo de apresentação do livro, onde algumas ideias centrais são resumidas pelos autores:
Não é difícil perceber que se a mudança progressista só pode ser implementada ao nível global ou europeu – ou, por outras palavras, se a alternativa ao status quo apresentada aos eleitorados é entre nacionalismo reaccionário e globalismo progressista – então a Esquerda já perdeu a batalha.
RESGATANDO O ESTADO
No entanto, não tem de ser assim. Como defendemos em 'Resgatando o Estado', uma visão progressista, emancipatória, da soberania nacional, uma alternativa radical à Direita e aos neoliberais – uma alternativa baseada na soberania popular, controlo democrático da economia, pleno emprego, justiça social, redistribuição dos ricos para os pobres, inclusão e, de forma mais geral, a transformação sócio-ecológica da produção e da sociedade – é possível. É mesmo necessária.
Como J. W. Mason escreve:
"Quaisquer arranjos institucionais [supra-nacionais] que em princípio possamos imaginar, como os sistemas de segurança social, a regulação laboral, a protecção ambiental e a redistribuição do rendimento e da riqueza que realmente existem, são de âmbito nacional e são geridos por governos nacionais. Por definição, qualquer luta para preservar a social democracia, tal como existe hoje, é uma luta pela defesa destas instituições nacionais."
Pela mesma razão, a luta para defender a soberania democrática do ataque da globalização neoliberal é a única base sobre a qual a Esquerda pode ser refundada, a Direita nacionalista desafiada, e o fosso que separa a Esquerda da sua base social ‘natural’ – os destituídos – pode ser preenchido.
Com esta finalidade, a Esquerda precisa de abandonar a sua obsessão com as políticas de identidade e recuperar o “entendimento mais alargado de emancipação, anti-hierárquico, igualitário, baseado na classe, anti-capitalista” que era a sua imagem de marca. Evidentemente, esta ênfase não anula a luta contra o racismo, o patriarcado, a xenofobia e outras formas de opressão e discriminação.
Adoptar plenamente uma visão progressista da soberania também significa abandonar os numerosos e falsos mitos da macroeconomia que infestam o discurso dos pensadores progressistas e de esquerda.
Artigo aqui

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A mesma farsa de sempre

A chamada candidatura de Mário Centeno à chamada presidência do chamado Eurogrupo não é propriamente uma surpresa. A ser bem-sucedida, trata-se de mais uma “exportação”, mas não desta solução governativa, que obviamente não é exportável, dado que corresponde, e responde, a circunstâncias de tempo e de espaço muito próprias deste nosso rectângulo. E o que se importará? Instabilidade, arrisco.

A ambição de Centeno parece estar em linha com a lógica de circulação de elites periféricas, que logo se imaginam no centro quando chegam ao governo, ou pouco tempo depois, e que tão bom resultado tem dado desde Durão Barroso. Centeno é diferente, dirão. Isto não é sobretudo pessoal. As elites periféricas circulam em função da sua adaptação aos interesses do centro. O centro tem mostrado interesse. E, para ser franco, creio que Centeno nem terá de se adaptar muito.

Trata-se afinal de contas de alguém com credenciais impecavelmente ortodoxas, incluindo uma útil “visão de mercado” das relações laborais, subtítulo de um dos seus livros, ou uma visão do sistema financeiro assente no escrupuloso cumprimento do princípio europeu do pagam, mas não mandam, típico de semicolónia. No fundo, a fidelidade ao Euro e suas regras que se requer. Tudo na ordem a sul, dirá quem manda a norte.

Neste contexto, na óptica de quem está no comando, a pergunta que se impõe é a seguinte: porque não haveria Centeno de ser uma útil e complementar adição à lógica da evolução na continuidade em curso nas instituições formais e informais europeias, permitindo ainda alimentar a ideia zumbi de que agora é que vai ser diferente na Zona Euro e na UE?

A tragédia é o Euro. Esta circulação é só a mesma farsa de sempre.

Capas e contracapas (II)

Como transformar um aumento salarial numa redução? Ou melhor, o que fazer para que um acréscimo efetivo de salário possa parecer, aos olhos da opinião pública, uma perda de rendimentos? Por momentos, parece ter sido esse o desafio a que se dedicaram alguns meios de comunicação social, em mais um momento de «capas e contracapas». Desta vez, o mote foi a restituição do subsídio de férias e de Natal e a consequente eliminação dos duodécimos (ou seja, a repartição destes subsídios pelos 12 meses do ano, em vez do correspondente pagamento de 14 salários).


O truque é simples: ignora-se que os subsídios de férias e de Natal voltam a ser pagos em dois meses do ano (guardando-se essa informação, na melhor das hipóteses, para o miolo do texto) e diz-se que o valor mensal do salário vai diminuir. Depois basta fazer a festa toda nas «gordas» da notícia: ora dizendo que o «salário no privado desce em janeiro», ora assinalando que os «trabalhadores passam a receber menos ao final do mês» ou que os salários vão encolher. A ponto de se poder ocultar uma melhoria real dos rendimentos, como aquela que terá lugar em 2018, em resultado do aumento, por exemplo, do salário mínimo (em pelo menos 322€, caso se mantenha o valor proposto pelo Governo, de 580€ por mês).


Trata-se, além do mais, de um acerto que não se repete. Ou seja, a aparente redução do salário, em termos mensais, deixará de se verificar no próximo ano, quando já não for necessário converter duodécimos em subsídios pagos de uma só vez. Aliás, foi justamente para obter o efeito inverso (a aparência de manutenção dos rendimentos num contexto de cortes efetivos nos salários e nas pensões), que o anterior Governo diluiu os subsídios de férias e de Natal pelos 12 meses do ano. Uma farsa que chega ao fim, com o OE de 2018.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

É bom o que é bom para os mercados? Lições do Chile


“Um governo apoiado por Bloco de Esquerda e PCP é mau para o país, porque será mal acolhido pelos mercados”. Este foi o argumento usado até à exaustão pela direita antes da constituição da atual maioria parlamentar. Como sabemos hoje, o argumento era falso. A subida das taxas de juro e do custo de financiamento da economia portuguesa não se verificou. Os apoiantes do novo governo apressaram-se a inverter o raciocínio formulado pela direita: o governo não é mau porque foi bem acolhido pelos mercados. Embora compreensível no quadro das necessidades de ganho imediato no debate político (eu mesmo não me escusei de o usar), este posicionamento encerra ameaças lógicas que não podem ser ignoradas. Afinal, se os mercados tivessem reagido mal e as taxas de juro subido, este seria um mau governo?

Os economistas Daniele Girardi e Samuel Bowles acabam de publicar um estudo sobre a reação do mercado bolsista chileno à eleição de Allende e ao golpe militar de Pinochet. No primeiro dia de transações após a eleição de Allende (8 de setembro de 1970) os títulos perderam 22% do seu valor, que só viria a estabilizar no final desse mês, após perdidos 48,6 pontos percentuais do valor bolsista inicial. Em esclarecedor contraste, no primeiro dia de transações após o golpe militar de Pinochet (17 de setembro de 1973), a cotação bolsista cresceu quase 80 pontos percentuais – 67 pontos percentuais, se descontada a elevada inflação dos dias em que a bolsa esteve suspensa - a maior valorização diária realizada até hoje na bolsa de Santiago. Utilizando métodos estatísticos sofisticados, que não vale a pena aqui detalhar, os autores concluem aquela que é a primeira intuição ao olhar para os dados: as variações súbitas nos valores das ações foram causadas pela mudança de regime político, não se encontrando evidência de que outra explicação, como a variação dos índices bolsistas internacionais ou o preço de transação das mercadorias das empresas chilenas, possam estar na sua base.


A conclusão é, pois, tão crua como parece à primeira vista: os mercados reagiram mal a um governo democraticamente eleito com um programa sustentado no progresso económico e social da população e reagiram bem (muito bem) a um golpe militar de inspiração fascista, que matou e encarcerou os seus opositores, suprimindo todas as liberdades políticas.

Esta ilustração de um dos episódios internacionais mais negros para a história da democracia e da esquerda deve recordar-nos do óbvio: elevar os mercados a referencial político moral, com capacidade de discernir entre o que é bom e o que é mau, é um erro. Os mercados não são uma entidade abstrata que se rege pelas leis “naturais” do desenvolvimento económico. Por detrás do movimento dos mercados existem pessoas concretas, cujas visões e interesses podem não estar – e amiúde não estão – alinhados com os interesses do povo que elege democraticamente os seus representantes. No Chile era uma pequena classe proprietária que receava a redistribuição da riqueza e a nacionalização das suas empresas; em Portugal, são as instituições internacionais e os investidores privados que, após forçarem uma arquitetura institucional que forçou o endividamento público, se preocupam agora unicamente com a capacidade de pagamento do Estado português, não olhando ao interesse social e económico das populações.

Procurar ver na reação dos mercados um indicador de boa governação, comprando a retórica da direita, é tentador no imediato. O ministro Mário Centeno usa este instrumento de argumentação política na maioria das suas declarações. Mas os perigos que representa a prazo podem mais do que superar os ganhos presentes. Quando um governo de esquerda se vir confrontado com a escolha entre o progresso económico e social e o interesse dos mercados (e isso vai acontecer), uma decisão ao encontro do interesse das populações poderá provocar uma reação negativa dos mercados. Nesse momento, um governo que escrutinou o seu sucesso pela reação dos mercados estará politicamente manietado. A prazo, só a direita pode ganhar em elevar os mercados a referencial moral. A esquerda que sabe que a escolha entre o Estado Social e o interesse dos mercados é apenas uma questão de tempo não se pode esquecer disto. Andar à boleia da retórica da direita para atingir ganhos imediatos pode custar-nos muito caro no futuro.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

As palavras são importantes

Permitam-me um comentário: tenho estado atento ao debate interno no PSD e não consigo identificar as famigeradas reformas de que tanto falam. Não encontrei, aliás, mais do que vagas proclamações. E percebe-se porquê. O conceito de reforma para a direita é privatizar, liberalizar e desregular. Reforma que é reforma tem de doer. O que o PSD e a direita política em Portugal não entendem é que para nós reformas têm outro significado. Para nós as reformas são avanços, não são recuos. Não é privatizar, é investir; não é liberalizar, é proteger; não é desregular, é inovar.

Excerto da intervenção final de Pedro Nuno Santos, que vale a pena escutar ou ler, no encerramento do debate sobre o Orçamento de Estado. É por saber que as palavras são importantes que Pedro Santos usa sempre a a expressão solução governativa e jamais usou a palavra geringonça. Um exemplo que muitos dos apoiantes desta fórmula deveriam seguir, já agora.

A palavra reforma é no seu discurso reconduzida ao seu significado histórico social-democrata, resgatando-a da captura neoliberal que a perverteu ao associá-la a técnicas institucionais para transferir recursos e poder de baixo para cima, de resto impulsionadas pela lógica da integração supranacional. O reformismo social-democrata, de base nacional, precisa mesmo da força e da pressão daqueles que querem ir mais longe em defesa dos subalternos.

Agora, só falta o PS ser consistente com um sentido que comporta uma autocrítica ao seu passado e, já agora, a uma parte do seu presente. Por exemplo, na área onde muito do que é importante nas vidas das tais pessoas concretas se decide: o trabalho. Para quando uma reforma laboral que permita superar a pesada herança institucional da troika?

domingo, 26 de novembro de 2017

O pedregulho

O debate organizado pela Universidade de Aveiro, a propósito dos dois anos do Governo, em que cidadãos escolhidos fizeram perguntas ao Governo, se não foi muito excitante como programa, revelou alguns aspectos interessantes e dramáticos.

O emprego, a saúde e, mais longe, muito mais longe, os incêndios e a segurança, foram os temas que concentraram as questões. Mas sobretudo foi o problema de se ser demasiado velho para "o mercado de emprego" e demasiado novo para se reformar; foi o problema dos desencorajados; foi o problema de quem não estuda, não trabalha e não recebe formação; dos recibos verdes, dos baixos salários, como impedir a emigração, das progressões nas carreiras, etc.

Isto dá um pouco a ideia do enviesamento de certas agendas críticas à actuação do Governo, nomeadamente como a do presidente da República e dos partidos da oposição. E até dos programas e comentadores televisivos que nem pegaram nestes temas para comentar o programa. Veja-se a entrevista de hoje no Público ao secretário de Estado Pedro Nuno Santos e procure-se a importância que foi dado ao tema, mesmo estando a assistir-se na comunicação social a mais uma vaga de despedimentos - Cofina e Impresa (Visão, Expresso, eventualmente SIC).

Mas depois, as respostas dadas pelo governo demonstram precisamente que esse dossier está longe das atenções oficiais e que foi adiado para 2019. "Não estava nos nossos planos mexer aí", é o pensamento do Governo.

R: Em matéria laboral, há muita coisa ainda para fazer, não tem de ser feito tudo agora, nesta legislatura. Há muito para fazer na negociação colectiva...
P: Nas indemnizações por despedimento...
R: Não vou dizer nada em concreto porque iria estar aqui a abrir um tópico de discussão para o qual não há interesse. Agora a precariedade é importante para este Governo, começámos no Estado e esse combate continua no privado. Isto preocupa-nos. Na matéria laboral há diferenças, estamos a trabalhar sobre elas,
Para tudo, o primeiro-ministro respondeu com o desajustamento existente entre a oferta e a procura de emprego de que se queixam os empresários, com a necessidade urgente de mais formação profissional - em linha com os fundos comunitários que aí vêm... -, com o estafado chavão de que vamos ter de ter mais profissões ao longo da nossa vida activa, até com a defesa da educação em programação digital nas nossas escolas. O ministro do Trabalho, com respostas mais consistentes e ideias mais estruturadas sobre o emprego, foi tentando responder na ausência de uma estratégia. Mas até respondeu à questão "Sou demasiado velha para ter emprego e demasiado nova para me reformar, tenho formação e não me dão trabalho", aconselhando que não se desista, que aposta na formação, e dizendo que a falta de natalidade tem feito com que o escalão etário com mais de 45 anos esteja a crescer no emprego criado, o que é visto como um indicador de que as empresas estão de novo a contratar pessoal experiente.

Ficou, pois, patente a ausência de respostas do governo para esta realidade, além de tiradas gerais, ideias importadas internacionalmente, do pouco pensamento próprio sobre o que se deveria fazer de mais eficaz.

E, no entanto, esta é a área essencial na vida dos portugueses e que urge atacar.

Placebo - Pure morning



sábado, 25 de novembro de 2017

Os números grandes e os números pequenos

O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), António Saraiva, disse à saída da reunião de ontem da Comissão Permanente da Concertação Social (CPCS) que as empresas têm de ser aliviadas dos esforços de tesouraria que representam o pagamento para os fundos de Compensação do Trabalho (FCT) e Fundo de Garantia de Compensação do Trabalho (FGCT).

Para quem não sabe, esses fundos foram criados em 2013, para prevenir situações em que os trabalhadores, com contratos posteriores a Outubro de 2013, eram despedidos e, por qualquer razão, não recebiam indemnização. Por cada contrato firmado, as empresas passaram a descontar 1% dos salários pagos, que contribuem para pagar até metade das indemnizações devidas. Caso os trabalhadores rescindam por sua vontade, os pagamentos feitos retornam às empresas respectivas. Cerca de 92,5% desse 1% vai para o FCT e os restantes 7,5% de 1% para o FGCT. 

Ora, as declarações de António Saraiva não são uma novidade. Já anteriormente ele dissera numa entrevista que os fundos estavam sobrecapitalizados - com cerca de 200 milhões de euros, dos quais se utilizara apenas cerca de 40 milhões. Para a CIP custava, pois, que houvesse depósitos mensais de 7 milhões de euros que, a ficar nas empresas, poderiam melhorar a sua situação de tesouraria...
"Estamos numa fase em que, felizmente, estamos a empregar e não a desempregar. Um fundo para aquilo que se destinava não precisa de estar tão fortemente capitalizado e é preciso encontrar uma forma de aliviar as empresas que estão carrear mensalmente para esse fundo 7 milhões de euros por mês"
Ontem na reunião da CPCS este tema foi novamente abordado sob diversas formas: menos descontos para as empresas, menores responsabilidades, menos transferências, menos contas bancárias, etc., etc.

Ora, vamos por partes:

1) Segundo os dados do próprio FCT referentes a Setembro passado, os descontos feitos por cada empresa nesse mês foram, em média, de 46,93 euros mensais. E por cada trabalhador, foi depositado em média 6,29 euros mensais. Isto porque houve 159.868 empresas a fazer descontos por conta de  1.193.052 contratos. É de duvidar, pois, que individualmente cada empresa possa estar em sofrimento por pagar mensal estas quantias... 

2) Mais: por estranho que pareça, o ano de 2017 - em plena retoma económica - foi aquele em que se pagou um maior volume de indemnizações. Cerca de 40% do valor das indemnizações pagas nos últimos 4 anos! Este facto revela que, apesar da retoma económica, se verifica o uso abusivo - e ilegal - de contratos de curta duração muitas vezes sendo renovados com o mesmo trabalhador, ou com outro trabalhador para o mesmo posto de trabalho, mantendo-se o trabalhador numa situação de precariedade. Essa elevada rotação é precisamente uma das coisas que se extrai dos números dos fundos. Veja-se aqui
   
3) Aqueles risíveis valores individuais de desconto são a consequência de - apesar da retoma económica - se pagar tão baixos salários desde que se iniciou a retoma económica em 2013. Caso se faça as contas sobre qual o salário médio praticado nesses novos contratos de trabalho, basta apenas dividir os 6,29 euros por 1%. Resultado: um valor que ficará ao redor dos 15 a 20% acima do salário mínimo nacional: 629 euros. Mesmo que os 6,29 euros se refiram ao financiamento apenas do FCT, isso representaria um salário de 680 euros mensais ilíquidos (6,29 euros / (0,925 x 0,01).


Voltemos, pois, às palavras de Saraiva.

Se são essas quantias que levarão as empresas a necessitar de alívios no esforço de tesouraria, é porque estão verdadeiramente mal. Na verdade, Saraiva apenas joga na negociação com os números grandes, esperando que ninguém se lembre dos pequenos. Faz parte da negociação. Enfim, é o que há.  

E, quem sabe?, mesmo assim é capaz de conseguir algumas coisas do Governo. Como as polémicas - e escandalosas - compensações pela Segurança Social à subida do SMN...

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Leituras


«A austeridade é um programa de redistribuição da riqueza ao contrário, que passa pela transferência de recursos financeiros do Estado para as empresas, do trabalho para o capital e do sector produtivo para o sector financeiro. E é por isso que, no mesmo texto em que diz que não há dinheiro para tudo, João Miguel Tavares não tem qualquer dificuldade em defender os apoios à banca e não teria seguramente qualquer dificuldade em defender a redução de impostos para as empresas. O problema está, para ele, num governo que diga às pessoas que pode ser diferente. Um governo assim merece toda a ira dos trabalhadores. Porque lhes alimenta esperanças. Mais uma vez, tem razão: é quando a situação alivia e as pessoas sentem que podem reconquistar qualquer coisa que a luta ressurge. A sua receita é óbvia: as coisas nunca devem aliviar. Se a coleira estiver sempre apertada e a trela sempre curta ninguém vai exigir nada. Esta é a paz social que a direita nos propõe: a austeridade eterna em nome de um futuro que será sempre de perda».

Daniel Oliveira, A austeridade eterna como programa político

«Para eles, a desigualdade social é o único mecanismo que pode garantir o crescimento económico, e para existir essa desigualdade é fundamental que as “pessoas certas”, os partidos certos e os grupos sociais certos estejam no poder para manter uma hierarquia que garanta essa desigualdade. E este programa não dá ao “trabalho” uma função criativa e dinâmica na economia, logo na sociedade, e muito menos os dá aos trabalhadores, sejam do sector privado, sejam do sector público. Vivemos anos de uma crise provocada pelos desmandos do sector financeiro, mas cujos custos foram assacados ao “esbanjamento” dos trabalhadores. Os trabalhadores eram os responsáveis por uma sociedade que vivia “acima das suas posses” e teria de ser “ajustada”. É o que hoje ainda pensam: cada euro que vá para salários ou funções sociais é um risco para a “economia”, e quando o “Diabo” vier vai ter de ser tudo, outra vez, posto na ordem»

José Pacheco Pereira, O amor da direita radical pelos trabalhadores do sector privado

«Os quatro OE que o governo PSD-CDS elaborou, entre 2011 e 2015, espelham o que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas pensaram ser o melhor para a sociedade portuguesa. Diminuição da carga fiscal sobre as empresas, o capital e os rendimentos financeiros, à custa de um enorme aumento de impostos sobre os trabalhadores por conta de outrém. Ora, a atual solução governativa fez da reversão dessas medidas o seu cimento. O OE de 2018 é claramente mais favorável ao trabalho que ao capital. Contempla um aumento extra de 6 a 10€ para os pensionistas e continua a repor os valores do RSI, o CSI e o Abono de Família. Desaparece o corte de 10% que se aplicava ao Subsídio de Desemprego ao fim de 6 meses. Acaba com os cortes nas horas extraordinárias dos funcionários públicos e as progressões nas carreiras serão totalmente descongeladas em 2018 e 2019. Em contrapartida, vai buscar dinheiro a bens importados ou prejudiciais à saúde, mantém a taxa de energia sobre a Galp, REN e EDP. Continuam as contribuições extraordinárias da banca, energia e farmacêuticas. E pode aumentar a derrama para empresas com lucros acima dos 35 milhões de euros. Por tudo isto, este é um orçamento de esquerda»

Nicolau Santos, OE 2018: desta vez ganham os trabalhadores e perdem as empresas

«Ao contrário daquilo que foram dizendo durante anos, é possível viver melhor em Portugal. Quando nós, neste orçamento, aumentamos as pensões, nós não estamos a ser eleitoralistas, nós não estamos a dar nada a ninguém. Nós estamos a respeitar quem trabalhou uma vida inteira e merece ter uma reforma com dignidade. Quando nós neste orçamento baixamos os impostos, não para os rendimentos do capital, mas para os trabalhadores da classe média e da classe média baixa, nós não estamos a ser eleitoralistas, nós estamos a respeitar quem trabalha e ganha pouco em Portugal e merece de todos nós respeito e um esforço orçamental importante. Quando nós descongelamos as carreiras, não estamos a ser eleitoralistas nem a dar nada a ninguém. Estamos a respeitar, a respeitar quem trabalha todos os dias nos hospitais deste país, nas escolas deste país, nas ruas deste país. Estamos a respeitar os trabalhadores do Estado, estamos a respeitar o contrato que o Estado tem com os seus trabalhadores»

Pedro Nuno Santos (intervenção no Debate na Especialidade do OE para 2018)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Cem anos que abalaram o mundo

O centenário da Revolução Russa serve de ocasião para o CES promover uma reflexão alargada sobre os caminhos emancipatórios que atravessaram o mundo no século XX e sobre as suas heranças, legados e limites. Enquanto lugar-símbolo das esperanças e dos impasses de um novo modelo socialista, 1917 constitui uma oportunidade analítica para pensar experiências e projetos que, na sua esteira e fora dela, foram construindo trajetórias alternativas ao capitalismo, ao colonialismo e ao patriarcado. Num tempo em que as hipóteses emancipatórias parecem pulverizadas, este encontro internacional procurará refletir criticamente sobre as mudanças ocorridas ao longo do século XX e sobre o lugar e a natureza dos imaginários de transformação social e libertação nos dias de hoje.

O programa do colóquio, que tem lugar amanhã e depois na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, está disponível aqui. A entrada é livre.

Limites

António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa declararam anteontem, cada um à sua maneira, que uma parte importante do assimétrico ajustamento dos anos de crise constitui uma derrota irreversível dos trabalhadores do sector público. Suspeitamos, dado o bloqueio governamental à alteração da regressiva legislação laboral do tempo da troika, que as derrotas dos restantes trabalhadores do sector privado no tempo da troika são também consideradas irreversíveis. Nesta área, está tudo muito ligado, por muito que a sabedoria convencional procure dividir os trabalhadores. É por estas e por outras sintomáticas reacções que é necessário continuar a aumentar a pressão social e negocial, com vista à mudança da correlação de forças e das políticas.

Por coincidência, anteontem ficámos a saber que este governo já mobilizou cerca de 9 mil milhões de euros em apoio à banca (podendo ir até aos 20 mil milhões, segundo Ricardo Cabral, mas quem é que está a contar?). Há sempre dinheiro para aquilo que é prioritário. A mim nunca me apanharão a dizer que a banca não deve ser “estabilizada” com dinheiros públicos. A banca é demasiado importante para ser deixada aos humores dos mercados e à predação de banqueiros sem escrúpulos e com demasiada margem de manobra política.

O que deve merecer revolta é a actual duplicidade, já que sobre a banca não existe o mesmo discurso vulgar do não há dinheiro “para tudo”. E o verdadeiro problema na banca, já agora, é o princípio europeu, aceite por este governo, do pagamos, mas não mandamos. No fim, pagamos para ficar com um sistema bancário com maior controlo estrangeiro, da banca espanhola a fundos predadores, e com uma CGD obrigada ainda mais a comportar-se como se fosse um banco privado. Pagamos para ficar com um sistema mais dependente e vulnerável.

E, claro, as futuras crises de um sistema por reformar em profundidade, com maior controlo público e mais desconexão financeira nacional, serão outros tantos pretextos para as elites do poder virem dizer ao país: lamentamos, mas não há dinheiro, nem direitos garantidos para quem vive do seu trabalho. Neste arranjo monetário e financeiro, as variáveis de ajustamento são brutalmente claras. E são também claros os limites estruturais desta solução governativa.

Duas notas sobre Saraiva

Ainda há dias o presidente da CIP, António Saraiva, teve umas declarações duplamente polémicas.

Disse ele:
Se compararmos o segundo trimestre de 2016 com o segundo trimestre de 2017, a população empregada por contrato, os contratos sem termo representaram 90%, com termo 10%. Acho que isto diz tudo. Se esta é a realidade, se constatamos que o emprego está a ser criado nestas séries que lhe referi são contratos sem termo, por que razão (...) se quer discriminar as empresas desta forma em sede de TSU que estão já hoje a contratar sem termo?
A primeira ideia polémica é a de uma contradição. Se, de facto, a esmagadora maioria do emprego criado já está a ser contratado sem termo, então a esmagadora maioria das empresas não será discriminada pela alterações à lei. Mas o problema é que os números não são bem esses. E revelam a real preocupação de Saraiva.

E entramos na segunda ideia polémica. De facto, olhando para as estimativas do INE no Inquérito ao Emprego, naquele período foram criados 155,7 mil postos de trabalho, dos quais 141,7 mil a contrato sem termo. Mas a realidade vai bem mais longe do que isso.

Os números do INE representam uma criação líquida, ou seja, é o resultado da criação e destruição de emprego num dado período. E por isso, não retratam o que se passa nessa criação e destruição de empregos.

Mas há dados que permitem olhar para essa "demografia" dos contratos - são os dados exaustivos (não estimativas) dos fundos de Compensação no Trabalho e de Garantia de Compensação do Trabalho, em vigor desde finais de 2013 - ou seja coincidindo com a retoma do emprego - para pagar as indemnizações por rescisão de contratos (trabalhados pelo Observatório sobre Crises e Alternativas).

O que se verifica? Que desde a retoma do emprego foram assinados 3,3 milhões de contratos e cessados quase 2,2 milhões de contratos. Desse confronto, concluia-se que cerca de 1,1 milhões dos novos contratos criados desde novembro de 2017 estavam vigentes a 15/5/2017.

Mas como é que podiam estar vigentes 1,1 milhões de contratos se a criação líquida de emprego está muito abaixo disso? A única explicação é a de que a cessação de contratos está já a afectar os "velhos" contratos permanentes que se transformaram entretanto em "novos" contratos. O que permite igualmente concluir que tanto os "velhos" como os "novos" contratos permanentes são cada vez menos isso - permanentes.

E essa realidade depois acaba por ter bem outras características do que os números do INE não parecem mostrar. Em Maio de 2017, apenas 33% dos contratos vigentes desde Novembro de 2013 eram permanentes; os contratos não permanentes representavam 67% dos contratos vigentes em Maio de 2017 e assumiam uma miríade de formas: contratos a prazo (36,4%), a prazo incerto (11,6%), a prazo a tempo parcial (6,6%), a prazo incerto temporário (4,3%), permanentes a tempo parcial (3,1%) e uma vasta panóplia de outras formas (4,8%).

A consequência prática dessa elevada rotação contratual é, evidentemente, as baixas remunerações.
A remuneração média dos novos contratos foi de 524 euros em 2014, de 583 euros em 2015, de 623 euros em 2016 e de 660 euros nos primeiros meses de 2017. Ou seja, muito próximas do valor do Salário Mínimo.

Pior: com se pode ler na publicação do Observatório, a remuneração dos contratos permanentes está a baixar e a aproximar-se cada vez mais dos contratos não permanentes.

Talvez fosse de acrescentar uma nota de rodapé: é a de que, entre portas, nas reuniões da concertação social, as confederações patronais sempre frisaram que as relações laborais - por contraponto aos custos de contexto - nunca foram o principal obstáculo a um desenvolvimento mais sustentável, pensamentos esses que foram inclusivamente transmitidos até por António Saraiva.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Algo se vai passar na Saúde

Sem querer abusar do uso de sondagens, dir-se-ia que os partidos que apoiam o governo representam três quintos das intenções de voto, contra dois quintos da Direita.

E, apesar disso, o governo decidiu patrocinar um diálogo com a Direita para rever a Lei de Bases da Saúde, dando-lhe um destaque e eficácia que nem o sector privado tem no terreno, nem a Constituição da República Portuguesa lhe concede abertamente.

Após uma proposta de clarificação da Lei de Bases da Saúde, apresentada pelo dirigente do Bloco de Esquerda João Semedo e pelo fundador do Serviço Nacional de Saúde (SNS) António Arnaut, no sentido de blindar o SNS da predação privada - que tem penetrado graças a décadas de suborçamentação e desarticulação do SNS e até por uma ADSE pública que financia a actividade privada - o governo decidiu equilibrar essa iniciativa dando uma mão precisamente ao sector privado.

"Convidámos a doutora Maria de Belém Roseira para que constitua uma comissão, nos critérios que ela própria definirá, e que possa acolher todas as sensibilidades da sociedade portuguesa", anunciou o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, no Parlamento. Ora, Maria de Belém Roseira é muito mais do que uma polémica ex-ministra socialista da Saúde - Maria de Belém Roseira é actualmente consultora do grupo privado Luz Saúde (sucedânea da Espírito Santo Saúde) e desde 2006, além de integrar o Conselho Consultivo da Luz Saúde, foi consultora da Euromedics e Merck, duas empresas com interesses diretos no setor da Saúde.

Objectivo: Conseguir "consenso alargado" tendo em vista um "pacto orçamental" - o que quer que seja que isto queira dizer... - que permita preparar um plano para a saúde para "mais do que uma legislatura".

Ou seja, encontrar um meio termo, uma bissetriz, entre a defesa do sector público (supostamente no Governo e nos partidos que o apoiam) e as pretensões privadas. O problema de uma estratégia como essa é que, quando se começa a regatear tapetes, acaba-se por comprar algum. E a dúvida será por que preço.

Claro que o presidente da República, no seu objectivo político - nunca declarado na campanha eleitoral - de conseguir um bloco político central, já aplaudiu a iniciativa e alargou-a, contribuindo para forçar essa porta que deveria estar bem clarificada em prol da defesa do SNS, tal como prevê a Constituição que Marcelo Rebelo de Sousa prometeu fazer cumprir. Não as suas ideias: a Constituição.

"Desde que assumi funções tenho dito que, embora haja um pacto implícito, não declarado, em que os vários partidos aceitam a realidade da saúde em muitos aspetos sem os confrontos ideológicos de outros tempos, era desejável haver uma convergência explícita, expressa, assumida”. “Como disse aqui, agora mesmo, porventura não é fácil, não tem sido fácil haver este tipo de compromissos, mas não é razão para eu não deixar de o defender”, sublinhou.