sábado, 27 de outubro de 2012

Ensino privado: nem melhor, nem mais barato (I)

Este ano, a informação dos resultados dos exames do ensino básico e secundário - que permitem estabelecer os famosos «rankings de escolas» - trouxe uma novidade digna de registo: pela primeira vez, para além das classificações médias obtidas pelos alunos, o Ministério da Educação disponibilizou informação relativa ao contexto sócio-económico (nomeadamente as habilitações e profissões dos pais e a percentagem de alunos, por estabelecimento de ensino, que recorrem a apoios da Acção Social escolar).

Estes elementos são indispensáveis para analisar, com um mínimo de seriedade, os resultados obtidos pelas escolas, obrigando a situá-las (e a interpretar o seu desempenho) no contexto em que se inserem. Isto é, trata-se de informação que permite concluir que há escolas cuja posição favorável que ocupam nos «rankings» resulta, apenas, do facto de serem dominantemente frequentadas por alunos com um estatuto sócio-económico acima da média. Ou concluir que há escolas que, apesar da sua baixa classificação, desenvolvem um trabalho notável em meios sócio-económicos menos favorecidos. Os indicadores de contexto familiar dos alunos (entre outros que seria igualmente desejável apurar) são, de facto, cruciais para poder avaliar - de forma credível - o desempenho dos diferentes estabelecimentos de ensino.

Mas, pasme-se, apenas as escolas do ensino público forneceram estes dados, relativos às habilitações e profissões dos pais ou, indirectamente, à sua situação económica (através da existência, ou não, de apoios da Acção Social escolar). Os estabelecimentos de ensino privado limitaram-se, portanto, a enviar para o Ministério as classificações médias obtidas em exame, o que impede qualquer exercício de ponderação com os indicadores de contexto.

Sabendo, como sabemos, que as escolas privadas são - na larga maioria dos casos - frequentadas por alunos de elevado estatuto sócio-económico, pode legitimamente pensar-se que estas instituições têm interesse em furtar-se à disponibilização da informação que os estabelecimentos de ensino público facultaram. A sobrevivência do fantasioso «mito da primazia do ensino privado» a isso, naturalmente, obriga.

NOTA: O gráfico aqui ao lado foi elaborado pelo Público, na sua edição de 13 de Outubro. Corresponde à ordenação decrescente das classificações obtidas pelas escolas de ensino básico, em que a vermelho se encontram as privadas e a laranja as públicas. Não é descabido supor, com grande segurança, que se fosse possível ordenar os resultados anulando as diferenças de contexto entre as escolas aquela mancha ali no topo (que concentra os privados) desapareceria. Por uma questão de rigor e credibilidade, o Ministério da Educação deve pois obrigar-se a assegurar que, no próximo ano, os estabelecimentos de ensino privado fornecem exactamente a mesma informação que é coligida no ensino público. É o mínimo, como bem saberá o ministro Nuno Crato.

6 comentários:

Luís Coelho disse...

Sempre ouvi dizer que o ensino privado primou pela qualidade. Não há furos. Os alunos são seguidos em todas as disciplinas e os pais são informados das dificuldades.

Sempre ouvi dizer que são mais baratas para o Estado. Numa privada os pais pagam e os professores não são um encargo para o Estado.

Hoje ouvindo o contrário fiquei na dúvida...

joão josé cardoso disse...

Nuno,a publicitação desses dados pelas privadas é um detalhe de somenos. Sem dúvida que o conhecimento do meio sócio-cultural dos alunos é importante, mas a falha estrutural destes rankings é outra: ordenam numa mesma listagem escolas que seleccionam os seus alunos e escolas que são obrigadas a aceitar quem nelas se matricula. Essa selecção inclui algumas públicas que têm excesso de procura (como o D. Maria...) e algumas (muito poucas) privadas não podem seleccionar porque têm um contrato de associação "verdadeiro" (só conheço bem o caso de Cernache).
Essa é que é a grande questão: quem escolhe pode ler os resultados anteriores dos alunos, se teve problemas disciplinares, etc. Claro que na prática vai seleccionar maioritariamente quem tem um bom nível sócio-cultural lá em casa, mas até se pode livrar de alguns que tendo-o não são recomendáveis como alunos...
Elaborar um ranking a sério nem é impossível com os dados disponíveis, mas por experiência (tentámos fazê-lo no Aventar) implica uma grande equipa e ligações aos territórios, nem sempre o que se encontra online chega.

André disse...

@ Luís Coelho:
1. O Estado e os encarregados de educação são a mesma pessoa.
Portanto quando o estado (nós) pagamos subsídios ao privado e depois os pais (nós) pagamos uma propina isso significa que na realidade o privado custa quase o dobro!

2. Sendo que só aceitam os melhores alunos e oriundos de ambientes socio-económicos altamente priveligiados liderar estes rankings da treta é "peanuts!

Nuno Serra disse...

Meu caro João José, a selecção de alunos pelos estabelecimentos de ensino não é, de facto, um exclusivo das escolas privadas. Se muitas escolas públicas sempre fecharam os olhos ao princípio da «área de influência», agora mais ainda - depois de Nuno Crato as incentivar a que o fizessem.
E é bem verdade também, como assinalas, que os indicadores de contexto agora divulgados ocultam critérios mais finos de selecção. Creio contudo que esses dados já permitem uma mudança substantiva na análise dos resultados por escola.
Abraço

joão josé cardoso disse...

Fique registado que nada contra os indicadores que agora aparecem. Serão sempre úteis e muito bem vindos, já agora completos. Mas com eles ou sem eles, o factor determinante no sucesso dos alunos de uma escola é a selecção (até porque social e culturalmente as escolas sabem muito bem como seleccionar).
Em última análise todas o fariam, mas actualmente umas podem (maioritariamente privadas) outras não.

Jose disse...

A 'afinação' da dúvida do Luís Coelho ou é notável ou já a trazia de casa!

Mas o ranking das escolas é, no essencial, o desempenho dos alunos, e deve permanecer com essa conotação, ainda que se lhe altere o nome.

Que haja um outro ranking que avalie o desempenho do professorado das escolas, acho muito bem que seja construído, e seguramente haverá muitos factores a considerar: assiduidade de alunos e professores, acções disciplinares, contexto sócio-económico, furos, greves, meios materiais disponíveis e tudo o mais que se entenda relevante.

Mascarar resultados incontestáveis com coeficientes é promover a cultura dos coitadinhos, que sendo dominante, pode desde já antecipar-se um resultado da treta.