quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sinais inequívocos de retoma do emprego

Na sua declaração natalícia, Passos Coelho fez questão de assinalar a criação líquida de 120 mil postos de trabalho entre o 1º e o 3º trimestres de 2013. A selecção do período em análise não é inócua: se tomarmos como referência o início do Memorando e do actual governo (2º trimestre de 2011), a queda do emprego foi, na verdade, superior a 430 mil postos de trabalho; e em termos homólogos (isto é, face a igual período do ano anterior) a queda do emprego foi superior a 100 mil (os dados são do INE).

 
 

Mais grave ainda é o tipo de emprego que está aqui em causa. Quando olhamos para a duração da semana de trabalho dos tais 120 mil empregos criados verificamos que o grosso dos novos empregos refere-se a actividades que ocupam entre 1 e 10 horas por semana. Isto não é emprego, é desespero.

Tirando esse grupo, o emprego só cresce, e pouco, para atividades de duração superior às 40 horas, ultrapassando assim os limites estabelecidos na lei para o horário normal de trabalho desde há quase 20 anos.

Pelo contrário, o emprego caiu significativamente para horários mais próximos da duração normal: ao longo de 2013 foram destruídos em termos líquidos mais de 310 mil empregos com duração entre 30 e 40 horas semanais.




Em suma, a criação de emprego em 2013 não passa de ilusão estatística, que serve os propósitos de um governo ávido por apresentar como sucesso uma situação de desastre. Dá para pensar se esta suspeita não tem mesmo razão de ser.


Adenda: abaixo está o quadro retirado do site do INE, construído a partir daqui: http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0005551&contexto=bd&selTab=tab2 (é preciso alterar as condições de selecção para ter os dados do 1º trimestre de 2013 e a desagregação da duração da semana de trabalho).

25 comentários:

Anónimo disse...

Pode indicar qual é a sua fonte? Fui ver ao ultimo relatório do INE em http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes&PUBLICACOEStipo=ea&PUBLICACOEScoleccao=5685773&selTab=tab0&xlang=pt e não consta (que eu tenha encontrado) dados sobre o emprego criado por horas. Obrigado.

Luis Cabrita disse...

Falta dizer que esse aumento de 400000 destes mimi-jobs corresponde totalmente a um efeito de sazonalidade que ocorre anualmente no terceiro trimestre.

Ricardo Paes Mamede disse...

veja aqui:

http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0005551&contexto=bd&selTab=tab2

e altere as condições de selecção para incluir o 1º trimester de 2013.

Anónimo disse...

Pois, pois e ainda temos que contabilizar os CEI e CEI+, que contam como emprego e realmente não passam de precariedade a somar à precariedade existente.

Zé Paulo disse...

Esses empregos de 1 a 10 horas ocorrem todos os anos no terceiro trimestre.
São empregos sazonais e 2013 não foi excepção.

Anónimo disse...

Mas o melhor também é saber, já que estão tão contentes com a diminuição do desemprego, o número de inscritos nos Centros de Emprego... Se diminuiu devido à "criação" de emprego ou se foi por emigração (que é o mais certo)...
Manipular dados é simples e este Governo é especialista nisso.

Pedro Marques disse...

Não sei se algum dos senhores fala de desemprego com conhecimento de causa, espero sinceramente que não para vosso bem, não esqueçam que ao fim de alguns meses as pessoas deixam de ter direito ao fundo de desemprego, mas continuam a ter obrigações para com o IEFP, nomeadamente apresentações sempre que alguém o decide, muitas vezes avisados no dia anterior como se ser desempregado equivale a não ter vida própria nem compromissos, logo muitos desempregados preferem não estar inscritos uma vez que só tem obrigações e não ganham nada com isso.

Unknown disse...

A manipulação dos dados do INE nem é o que me faz espécie. O pior é a CS, que deveria apostar numa lógica transparente, apresentar os dados sem sentido crítico. Uma vergonha.

Unknown disse...

Boa tarde, e desculpem mas não posso deixar de comentar, pois sobre o desemprego há muito que se lhe diga...
Para além de todas as estatísticas manipuladas ou não, existe algo de muito mais concreto a avaliar, o dia a dia que se assiste na rua, cada vez mais pessoas de volta de contentores em busca de algo que consigam transformar em algum valor (inclusive valor alimentar, sim porque muitas pessoas o melhor que comem é mesmo o que desencantam nessa procura infeliz a qual são obrigados por questões de sobrevivência).
Eu próprio sofri desse grande "trauma" que é o desemprego e posso concluir que estar desempregado é um verdadeiro trauma, pois submetem-nos a apresentações periódicas, obrigam-nos a fazer prova física de procura activa de emprego, e no caso de alguma falha do desempregado eles são muito bons é a cortar subsídios, porque a orientar as pessoas, ajudar e tentar apresentar alternativas...
Um bem haja e sorte para todos ~B)

Anónimo disse...

A diminuição dos inscritos no centro de desemprego é totalmente manipulado.... Sabiam que se uma pessoa faltar a uma chamada a sua inscrição é automaticamente fechada no centro de emprego.... Este é apenas um dos métodos. Estes senhores no governo (neste e noutros) só se interessam por números e estatísticas e faz tudo ao seu alcance para os manipular para que nas próximas eleições possam apresentar os seu grandes "numeros".

Anónimo disse...

Não tenho dúvida de que Portugal está governado por uma institucionalizada associação de malfeitores...

Anónimo disse...

Fora as pessoas que migraram por força maior!
Governo de corruptos! Vão enterrar o pobre do Eusébio no Panteão seus palhaços!

Acácio Pinheiro disse...

Era preferível fazer a comparação com o período homólogo de 2012. Permitia-nos perceber melhor o que se passou, independentemente da propaganda do Governo

Anónimo disse...

EU SABIA QUE OS PORTUGUESES ERAM BURROS, MAS DEPOIS DE LER OS COMENTARIOS A DIZER QUE SE FALSIFICAM OS DADOS DO INE....FIQUEI AINDA COM MAIS CERTEZAS QUE OS CURSOS DAS NOVAS OPORTUNIDADES SÃO TIRADOS AO DOMINGO

Anónimo disse...

Ficava bem ao autor do post retratar-se, explicando o seu erro: usar a duração semanal efetiva de trabalho e não a duração habitual. A primeira cai sempre, em média, durante o 3.º trimestre (férias de Verão). Na verdade, o trabalho a tempo parcial diminuiu no 3.º trimestre: o crescimento do trabalho a tempo completo explica a totalidade do aumento de 120.000 pessoas empregadas.

Anónimo disse...

Exacto. Era preferível fazer uma comparação com o ano de 2011 e 2012...

Anónimo disse...

Prof. Doutor Ricardo paes Mamede, consegue rebater este artigo que fizeram sobre este?

http://oinsurgente.org/2014/01/09/a-manipulacao-estatistica-dos-dados-de-emprego/~

Muito obrigado.

Os melhores cumprimentos

Ricardo Paes Mamede disse...

Acácio Pinheiro,

No período homólogo (i.e., entre o 3º trimestre de 2012 e o 3º trimester de 2013) diminuíram em cerca de 100 mil os empregos com duração semanal efectiva entre 31 e 40 horas. Nesse periodo já não se verifica o mesmo aumento que nos dados apresentados no post (que tomam por referência o período utilizado pelo primeiro-ministro) no que respeita aos empregos entre 1 e 10 horas efectivas(já que são influenciados por factores sazonais), que verificam uma redução de cerca de 40 mil. Por seu lado, há um aumento de 24 mil empregos de duração desconhecida.

A forma como os dados são recolhidos não nos permite ter uma ideia exacta do que se está a passar em termos de qualidade do emprego que aparentemente aumentou no 2º e no 3º trimestre de 2013. A comparação de diferentes variáveis confirma-nos, precisamente, que os dados sobre o emprego são vulneráveis a manipulações.

SFF disse...

Parece que os dados/gráficos de um blog, cujo link deixo, não refletem a história da criação de empregos com horários de trabalho curtos...

http://desviocolossal.wordpress.com/2014/01/09/ainda-a-descida-do-desemprego-e-teorias-da-conspiracao/

E como estamos aqui para o debate de ideias, acho que seria bom para todos existir algum esclarecimento.

Ricardo Paes Mamede disse...

SFF,

o post que refere torna clara a diferença entre usar horários habituais ou horários efectivos. Ambos têm limitações: os primeiros não nos dizem quanto tempo as pessoas trabalharam efectivamente, os segundos estão mais sujeitos a factores sazonais. Parte dos empregos com duração efectiva entre 1 a 10 horas semanais são explicados pelas férias, da mesma forma que parte dos empregos com duração habitual poderão ser não-permanentes. Como escrevi acima, o inquérito ao emprego, como é disponibilizado pelo INE, não nos permite saber muito sobre a qualidade do emprego. E boa parte da leitura que se pode ter da evolução do volume de emprego passa por aí.

André Branco disse...

Repito o meu post porque tinha o link mal indiciado, as minhas desculpas.

Prof. Doutor Ricardo paes Mamede, consegue rebater este artigo que fizeram sobre o seu post?

http://oinsurgente.org/2014/01/09/a-manipulacao-estatistica-dos-dados-de-emprego/

Muito obrigado.

Os melhores cumprimentos

Ricardo Paes Mamede disse...

André Barnco,
a resposta é idêntica à que dei atrás a SFF, já que os argumentos apresentados vão na mesma linha.

Renato Roque disse...

E alguém que perceba mais disto do que eu me pode explicar como pode baixar o desemprego e aumentar o desemprego jovem ao mesmo tempo, se são sobretudo os jovens a emigrar e sobretudo eles que aceitam trabalhos sazonais? Algo me escapa?

Renato Roque

Luis Cabrita disse...

Para se poder avaliar melhor a qualidade dos empregos criados deixo este link;

http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0005549&contexto=bd&selTab=tab2

Refere-se ao periodo de trabalho diário. Constata-se que os horários convencionais ou seja entre as 7h - 8h e as 18h - 19h dimuuem no 1T e 2T, todos os outros quer seja por turnos aos domingos ou á noite aumentam.
A qualidade do emprego vista do ponto de vista dos trabalhadores claro que terá diminuido. Acredito que seja muito mais dificil para um trabalhador conciliar a vida pessoal e familiar com a profissional trabalhando por turnos e à noite, ou aos domingos.

Pedro Martins disse...

Caro Professor,

Embora concorde por inteiro no que toca ao facto de os empregos criados terem sido uma redução de carga horária isto foi feito pela Alemanha a algum tempo no sentido de impulsionar o emprego. No entanto, como é previsível, vai de encontro com a teoria working poor, teremos uma redução do desemprego e uma redução do poder de compra pois a qualidade de vida e o salário irão consequentemente diminuir.
Agora chegando ao cerne do meu argumento eu queria perguntar que outra opção ou caminho poderia ter sido tomado?
Como incentivar o emprego quando estamos sobre administração e pressão da Troika e quando nos regemos por um sistema de câmbio fixo indirecto (devido ao dever de impedir as variações da taxa de inflação ) e todas as nossas políticas fiscais são praticamente ineficazes tendo em conta o PIB percentual que representamos em relação aos principais países europeus?

Cumprimentos