domingo, 16 de março de 2014

O timing, a catástrofe, o irrealismo e o tabu

Diz a dr.ª Teodora Cardoso: "Uma reestruturação só se justifica numa situação de catástrofe, como a grega". Então esse é que seria o timing apropriado? Esperar que chegue a catástrofe para reconhecer que a dívida não é pagável?

Diz Passos Coelho que reestruturar é irrealista. Mas, depois do agitar do pântano, o significado de irrealismo alterou-se. Quem pensa ser possível pagar a dívida até o último cêntimo, com estes juros e estes prazos, está obrigado a explicar, tintim por tintim, como é que isso pode ser feito e as implicações de o fazer. Veremos então o que é irrealista.

"Todos sabemos que a dívida não pode ser paga até o último tostão" - dizem em privado os mesmos que mandam calar quem o reconhece abertamente -, "há verdades que não podem ser ditas porque os mercados se zangam". (...) O tabu repugna porque sugere que quem não se cala é mau português. Sugere também que quem não se cala a bem tem de ser calado de outra maneira qualquer. Sugere, ainda, que a verdade pouco importa e que o debate público é irrelevante; que a democracia já não conta e que nos resta aceitar a vontade e o interesse dos "mercados". Por aqui passa uma linha vermelha. Os que gritam "calem--se" estão a pisá-la.

Manuel Carvalho da Silva, Jornal de Notícias

9 comentários:

Jose disse...

Tenho saudades do Álvaro!!!

Preocupava-se em extrair uns minerais, olhava para o mar com olho guloso, pensava em fazer economia, em realizar dinheiro.

Agora estamos nisto, os melhores espíritos debruçam-se sobre o tempo e o modo de ferrar o calote aos credores, numa luta sanguinária entre dissimulados, chorosos e malfeitores!!!

Anónimo disse...

Por aí de facto passa uma grande linha vermelha.E o silenciamento dos que não bebem das águas fétidas e pútridas é o desejo expresso em viva voz pela canalha que nos governa.

Quanto ao comentário do Jose , tenho muita pena mas não sei mesmo quem é o Álvaro nem acho que as suas preocupações sejam sequer relevantes
Mas o resto cheira-me a propaganda dos credores e dos seus sequazes, habituados a vergar a mola em benefício próprio e dos seus interesses.
Uma espécie de ferrar o calote aos que não lhes seguem as pisadas,
um dissimulado credor, fingindo-se choroso mas nunca benfeitor que à substância do texto não responde nada. "Esquece-se" que por aqui ainda não é o slogan barato que constitui argumento.
Acontece

De

Jaime Santos disse...

Sim, já se sabe que quem quer reestruturar uma dívida impagável é um caloteiro, mesmo quando o contracto de dívida não é de risco nulo e por isso inclui o pagamento de um prémio contra o incumprimento... Dado que as pessoas não querem prescindir da capacidade política de decidirem sobre a esfera económica e não acreditam na história da carochinha de que o Mercado desregulado é um 'level playing field', sugiro ao Anónimo que assina José que pegue no seu ressentimento e imigre para Singapura, onde as regras (e o sistema político) são mais consentâneas com a sua maneira de pensar. Ou então, imigre para Alberta, onde o Canadá (um exemplo de rigor fiscal) conseguiu transformar um território selvagem numa verdadeira paisagem lunar ('eles criaram um deserto e chamaram-lhe paz'), coisa aliás que o tonto do Álvaro sugeriu fazer em tempos por cá. Não perca tempo que aqui não convence ninguém, homem... Agora, se é só para destilar o seu fel, esteja à vontade, ainda estamos num País livre, mesmo se pelos vistos os seus amigos governantes acham que é muito pouco patriótico vir falar de reestruturação. A mentira é patriótica, o silêncio é patriótico, a ignorância é força, pá!

Jose disse...

Jaime Santos é pessoa que sabe duas letras de econimia e finanças, pelo que merece atenção.
A capacidade política de decidirem sobre a esfera económica manifestou-se largamente neste país e criou até uma vida própria numa região conhecida por 'para além do orçamento'.
Essa é um região em que, como muito sábiamemte diz, acreditar que o mercado é um ' level playing field' é para quem acredita em histórias da carochinha.

Anónimo disse...

Passos Coelho já nos habituou com as suas tiradas plenas de estupidez por isso nada a estranhar das declarações de tal fulano.
Teodora Cardoso, tal como o Passos Coelho, talvez infectada por ele, está a fazer o mesmo caminho com a agravante de ser Presidente duma coisa qualquer total e completamente inútil e que apenas serve para nos sacar o dinheiro que a sustenta.
Com irrelevâncias destas a botar faladura não vamos a lado nenhum.

Isabel Costa disse...

Caro Ricardo:
Gostava de saber a sua opinião sobre este post do Luís salgado matos: http://oeconomistaport.wordpress.com/2014/03/17/bancos-empresas-cuidado-o-dr-passos-coelho-esqueceu-se-da-divida-privada-para-a-pagar-fmi-aconselha-vaga-de-falencias/
É que é assustador e, de facto, não vi nada sobre a questão do pagamento das dívidas privadas e a notícia do Jornal de Negócios para que ele remete não está acessível online.
Obrigada, Isabel

Anónimo disse...

O José parece que quer falar apenas com pessoas com o pedigree apropriado.Isso acontece. Mas passa rápido.
( já agora uma grande resposta do Jaime )
Abandonado o tema do seu amigo, o Álvaro(?), josé agora vira o bico ao prego,usando como justificação um formulário conhecido que é o de usar parceiros ideológicos de direita neoliberais,amigos e companheiros de estrada de cavaco e coelho, saudosistas confessos do salazarismo como argumentário para a presente situação do país.
O capitalismo é o capitalismo e Jardim um dos seus servidores.Até à medula.
Que os povos não tenham de pagar as contas dos amigos do Coelho e cavaco é da mais elementar justiça.Que não tenham que pagar os favores à banca e ao capital um facto óbvio.
Que os povos exijam o controlo político na esfera económica é do mais elementar direito democrático. Que nem as histórias da carochinha nem as cotoveladas ditatoriais podem fazer esquecer.

Já agora saúda-se o recuo do josé sobre a caracterização dos que se opõem à máfia troikista como "caloteiros, dissimulados, choroso e malfeitores".De vez em quando é bom chamar mesmo a atenção a quem tem esta visão própria dum fundamentalista do antes do 25 de Abril
De

Anónimo disse...

Cito um fragmento de um texto de JM Correia Pinto
"Cavaco é coerente e sabe o que faz. Como defensor do neoliberalismo, Cavaco sabe – e concorda – que o neoliberalismo afastou a democracia das questões económico-financeiras e por arrastamento de todas as questões em que a importância daquelas se reflecte. Quem dita as regras nestas matérias não é o povo, directamente ou por intermédio dos seus representantes, mas os mercados. Os mercados é que dizem o que se pode ou não pode fazer. Por outro lado, o poder político, a política – por outras palavras, a democracia – não pode interferir com a “justiça” do mercado. Não há justiça social que se sobreponha à “justiça do mercado”.

Portanto, o que Cavaco está a dizer aos portugueses é, por outras palavras, o seguinte: “A democracia acabou. O que se pode ou não fazer nos domínios da governação, seja em que campo for, depende das imposições do mercado. Quanto a isso nada poderemos fazer. O que nós podemos e devemos é tentar agradar aos mercados, tentar “amaciar” a sua acção para que o tratamento deles relativamente a nós seja o mais brando possível. E é minha convicção que se o PS, o CDS e o PSD fizerem simultaneamente essa profissão de fé e derem garantias aos mercados de que não tentarão interferir com as suas normas, eles nos tratarão melhor do que nos tratariam se essa garantia lhes não for dada”.

Isto é o que diz Cavaco. E nós o que dizemos? E o que fazemos a um Presidente como este?"
http://politeiablogspotcom.blogspot.pt/2014/03/cavaco-e-o-consenso.html

Jose é apenas o porta-voz duma coisa assim.
Diga-se com todas as letras. os tambores soam e ai de quem os não escute.Para o bem e para o mal
De

Jaime Santos disse...

José, discordaremos até ao fim. Se alguma coisa faltou, foi capacidade de decisão política relativamente à Economia. Ninguém perguntou ao Povo (em Referendo, claro está, que é para isso que eles deviam servir) se desejava que o Escudo aderisse a um novo Padrão Ouro (o Euro) que destruiu a capacidade competitiva internacional da Economia (e consequentemente a fez voltar-se para dentro), ao mesmo tempo que deixava o endividamento público e privado ao preço da chuva, num puro exemplo de risco moral, assumido pelo sector bancário, claro está... Mas você é demasiado bondoso, eu não sei nada de Economia e Finanças, mas sei alguma coisa de História, algo que os Economistas (e os falsos moralistas) convenientemente esquecem (o argumento principal deles não passa aliás de uma variação da soundbyte 'Gritar repetidamente bancarrota o mais alto que possas, para ver se os outros se calam'). Veja, se quiser, http://www.nber.org/chapters/c11482.pdf, de Bernanke e James e, no seguimento, http://expresso.sapo.pt/defensores-da-austeridade-sofrem-de-amnesia=f847850 e ainda o post de 05/01/2014 do João Rodrigues (com link ao artigo).