segunda-feira, 31 de março de 2014

Sucesso a martelo

Os defensores da estratégia da austeridade e das chamadas reformas estruturais embandeiraram em arco quando viram as últimas previsões do Banco de Portugal (BdP). Neste jornal, António Costa, ufano, chegou mesmo a escrever que a economia tinha regressado, mas, agora, mais equilibrada e sustentável e sem os desequilíbrios externos que (alegadamente) nos trouxeram até à 'troika'.

Um sucesso que justifica todos os disparates que se escreveram sobre o manifesto dos 74 e que nos permite olhar para o futuro com otimismo, sem necessidade de pensar em alternativas, que, como mostram as previsões do BdP, se tornaram desnecessárias. Esta história seria, sem dúvida, edificante, não fosse não fazer grande sentido.

Não sei que números é que António Costa viu, mas não foram seguramente os do BdP, porque o que o BdP nos diz é que, em termos de crescimento e do seu perfil, o pós-‘troika' não é melhor que o pré-‘troika', antes pelo contrário. No período 2000-8, a economia cresceu, em média, 1,3%, o contributo da procura interna foi 1,3% e o da procura externa líquida 0%. No triénio 2014-6, o BdP prevê que a economia cresça, em média, 1,4%, o contributo da procura interna seja 1,3% e o da procura externa líquida 0,1%. Tendo em conta que o desemprego e a dívida pública em percentagem do PIB são mais do dobro do que eram no período pré-‘troika', que o investimento caiu mais de 30% nos últimos 3 anos, torna-se difícil, para não dizer impossível, olhar para estes números e vislumbrar o tal sucesso económico que permita encarar o futuro com otimismo.

A tão falada transformação estrutural pura e simplesmente não existiu. A suposta marca do crescimento mais equilibrado e sustentável - o facto do défice externo ter sido eliminado - não se deve a qualquer transformação qualitativa da economia portuguesa, deve-se, isso sim, ao facto do PIB estar ao nível do que estava em 2000, do desemprego estar acima dos 15% e das importações terem caído a pique. Ou seja, tirando a destruição causada pela austeridade, nada de estruturalmente positivo foi construído. O alegado sucesso depende, pois, da manutenção da recessão e do desemprego, porque, quando vemos o crescimento económico regressar, este não só tem taxas de crescimento muito semelhantes ao período pré-crise, como tem exatamente o mesmo perfil. Por outras palavras, quando o PIB recuperar da destruição dos últimos anos, o desequilíbrio externo regressará.

Se olharmos para previsões anteriores do BdP, o que mudou foi que, súbita e misteriosamente, o crescimento económico do pós-‘troika' deixou de assentar na procura externa líquida, tendo a procura interna voltado a ser o motor (exclusivo) da economia... como no passado. Não deixa de ser bizarro ver instituições que sempre disseram que o único crescimento sustentável era o que assentava na procura externa líquida, e que previram que as reformas estruturais assegurariam esse perfil de crescimento no pós-‘troika', virem agora, quando nos aproximamos do fim do programa da ‘troika', celebrar a negação de tudo isto. A explicação para esta pirueta é simples: o BdP (e o Governo e o António Costa) decidiu decretar que este programa tinha de ser um sucesso. Se necessário, um sucesso a martelo e ao arrepio de todos os factos. É o caso.

(artigo publicado no Económico)

10 comentários:

Jose disse...

Por qualquer razão obscura, o aumento das exportações, verificado e projectado, nunca parece ter relevância.
O comportamento da procura interna, em que comparativamente o Estado perderá relevância, é apresentado como se o investimento nela não tivesse qualquer contributo.
O demagogo não deixa de o ser pelo facto de apresentar números, bem pelo contrário, esse é hoje o principal elemento da retórica demagógica.

Anónimo disse...

António Costa do económico continua alegremente a escrever disparates.
Ainda bem que pessoas como o João Galamba o metem na linha.
É tempo daquele sujeito deixar de escrever tanto disparate.

R.B. NorTør disse...

Já aqui tive a oportunidade de comentar que considero que a conclusão que o programa de, chamemos-lhe, ajustamento foi um falhanço é errónea e quase que desculpa os seus executantes.

Quase que os desculpa porque dá a entender que coitados não sabiam o que faziam. Acontece que sabiam. E tanto o sabiam, que o programa foi um sucesso a toda a linha. A conclusão é dita pelo João neste artigo: "O alegado sucesso depende, pois, da manutenção da recessão e do desemprego, porque, quando vemos o crescimento económico regressar, este não só tem taxas de crescimento muito semelhantes ao período pré-crise, como tem exatamente o mesmo perfil.". O destacado é meu e é a base do programa do governo. Mais desemprego e menos acesso a contribuições sociais são a base da reforma social que se assistiu em Portugal, e um pouco por onde passou a troika, pese o facto de apenas Portugal ter abraçado esse destino não só com um sorriso nos lábios, mas até achando que o proposto era insuficiente.

Ou seja, o último parágrafo do artigo do João é aquele que contém efectivamente algo de novo, quando refere que subitamente a procura interna é que é.


Vejamos o que a realidade tem a dizer, com mais cortes anunciados para o pós-europeias. Eu não sei é como ainda há quem oiça essas notícias e vá a correr botar cruzinha neles. Não acredito que 25% de quem vota tenha cartão de sócio...

João Galamba disse...

José, vá lá ler o artigo outra vez, acho que não percebeu o que lá está escrito. Qual é a parte da procura externa líquida (exportações menos importações que não percebeu?). Não sei se sabe, mas as exportações também cresceram no pre-troika; cresceram, aliás, mais do que agora. Por esta razão, o que escreveu no seu comentário não tem qualquer justificação. Passe bem e pense melhor antes de chamar demagogo

Anónimo disse...

Os factos são óbvios. Não houve qualquer transformação estrutural da economia.

Afinal de contas para que é que serviu o PAEF?

É bom que os responsáveis pela sua execução sejam responsabilizados.

A única coisa que aconteceu foi uma enorme compressão das importações e uma estagnação das exportações.

Aliás, em termos reais Portugal continua a perder quota de mercado em exportações.

Adelino Ferreira disse...

João Galamba
O Jose em tudo o que é sítio desconversa, é tipo troll.

Anónimo disse...

De facto é muito triste o arremesso malcriado que jose faz a quem não segue as pisadas neoliberais dos Passos, gaspares e cavacos
Aconselha-se vivamente a leitura do texto de Nuno Teles "Do excedente externo"
Há mais .Ficará para depois.

Não deixa e ser cómico ( e significativo ) o medo que alguns têm da frieza dos números. Vivem esses alguns de "números" de pantomina, em que os factos e os dados objectivos não os são quando desmentem as teses neoliberais e austeritárias dos que governam.
Dói-lhes a alma quando a realidade os desmente. Daí tudo serve para tentar esconder a sua debilidade intelectual e científica.

O termo demagógico usado para esconder a verdadeira demagogia.E para ocultar o vero fracasso destas políticas miseráveis e geradoras de miséria ( menos claro para a troika e os troikistas )

De

Jose disse...

João Galamba, a questão que subsiste é a relação consumo investimento, quer na procura interna quer na procura externa líquida.
Sem essa avaliação os dados podem ser relevantes para a liquidez dos credores, mas não esclarecem os dados estruturais e desse ponto de vista não comparam com o período pré-austeridade.
Mas se o tema é mero contributo para o da reestruturação da dívida, o que é certo é que esta vem ocorrendo e seguramente continuará a ocorrer no futuro.
O ser 'manifesta' ou não só tem importância para a luta política interna que os credores vêem com a sobranceria de quem não lida com quem tem capacidade de decidir sobre o como e quando reestruturar, sejam manifestantes ou opositores.

Anónimo disse...

O José está de certeza a soldo do Passos Coelho e dos seus capangas.
Esta gentalha não se enxerga nem por nada.

Anónimo disse...

Uma "intervenção " demasiado atabalhoada do jose para poder ser compreendida:
-Dados estruturais serão precisamente quais na óptica do jose? Os que o jose quer aos dias pares ou aos dias impares?
-Há dados que só são relevantes para os credores? ( a submissão à troika tem matizes surpreendentes)
-A reestruturação da dívida vai ocorrendo? (Hipocrisia?O histerismo em torno da reestruturação esbarra no "segredo oficial" à boa maneira dos meandros da Democracia" salazarista?
-A "luta política interna" será um outro chavão que elucida a vertente pouco democrática do josé?
-A "sobranceria dos credores" face aos " manifestantes e opositores será um arrumar feito à medida que preceito ideológico?Ou é apenas a subserviência troikista habitual e malcriada?

De