quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O ano de viver corajosamente


Tudo aponta para que 2015 seja o ano em que os povos da Europa começarão finalmente a enfrentar a sério as estruturas que os têm subjugado. Será um ano que exigirá grande coragem.

É cada vez mais provável que 2015 venha a representar um ano de viragem para o futuro da Europa. Desde que a actual crise político-económica teve início, em 2007-2008, os destinos políticos europeus, tanto à escala europeia como nacional, têm sido sempre conduzidos por partidos dos dois pólos do actual centro político: conservadores ou sociais-democratas. Acontece que estes dois pólos são praticamente indistinguíveis face às questões fundamentais que determinam esta crise. No presente contexto de encruzilhada sistémica, mais importante do que o muito que os distingue (a visão da política social, a maior ou menor prontidão para privatizar serviços públicos, as posições em matéria de direitos civis) é o muito em que convergem (a aquiescência perante o capital, designadamente financeiro, materializada na aceitação do Tratado Orçamental europeu, da arquitectura do Euro ou da intocabilidade da dívida).
Esta convergência dos dois pólos do centro político tradicional em relação às questões fundamentais que determinam a crise tem produzido grande devastação económica e social, que tem sido especialmente acentuada na periferia mas que não deixou as economias do centro intocadas. Há actualmente mais de 26 milhões de desempregados no espaço da União Europeia, dos quais 18,5 milhões na zona Euro. O desemprego jovem atinge 54% em Espanha, 50% na Grécia, 34% em Portugal. A pobreza, absoluta e relativa, tem alastrado a um ponto que julgávamos já impossível na Europa. A crise eterniza-se, sem fim à vista, enquanto os direitos dos cidadãos não param de reduzir-se.
Toda esta devastação e todo este sofrimento eram e são evitáveis. Não são o resultado de um qualquer deus ex-machina, mas de escolhas políticas.

A escolha de implementar, ao longo de anos, sucessivas rondas de "reformas estruturais" destinadas a promover a "competitividade", que mais não constituem do que uma corrida para o fundo em matéria fiscal e de regulação laboral, a qual tem deixado todos atolados no pântano da desigualdade, da precariedade, da financeirização e da escassez de recursos à disposição dos Estados.
A escolha de abdicar da autonomia cambial e monetária, confiando numa mágica convergência real que faltou ao encontro e enviou em seu lugar endividamento externo galopante e divergência.
A escolha de, em face de crises de dívida pública, salvaguardar os direitos adquiridos dos credores, penalizar os cidadãos e substituir gradualmente os credores privados por empréstimos internacionais públicos de modo a que os inevitáveis defaults, quando ocorrerem, penalizem novamente cidadãos e não instituições financeiras.
A escolha de vedar institucionalmente a possibilidade do Banco Central eliminar, por via da inflação, o endividamento privado acumulado, que constitui hoje o fardo maior que pesa sobre a economia europeia.
Não são escolhas fáceis de inverter. Mas são as questões decisivas nos dias que correm e o centro político nem sequer tenta, nem sequer quer invertê-las. No caso do pólo social-democrata, porque vive ainda na ilusão da possibilidade de uma conciliação mágica entre os interesses do capital e os interesses das pessoas. Essa conciliação foi possível durante as décadas do capitalismo relativamente regulado do pós-guerra, mas constituía um equilíbrio instável. E neste contexto de encruzilhada em que essa conciliação deixou de ser possível, a social-democracia europeia, na hora da verdade, tem dado sempre prioridade aos interesses do capital - pagando por isso o merecido preço da sua redução à irrelevância política (veja-se como estão o PASOK e o PSOE, veja-se por onde vai o PSF).
Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, como diz o ditado. Seria sempre uma questão de tempo até que esta economia política da estagnação e da subjugação começasse a ser posta em causa. Ao que tudo indica, isso poderá suceder em primeiro lugar na Grécia, com a possível eleição iminente do primeiro governo que promete começar a enfrentar seriamente estas estruturas de dominação.
São ainda muitas as barreiras que o Syriza tem pela frente: terá de vencer as eleições; terá de conseguir formar governo; terá de manter-se fiel, não obstante todas as pressões nacionais e internacionais em contrário, aos compromissos que o terão feito eleger. E depois disso terá de saber enfrentar as represálias das instâncias políticas e económicas que não estarão dispostas a assistir de braços cruzados a que seja posta em causa a ordem em que assenta a sua dominação.
Um tal governo, e o povo que o eleger, precisarão sobretudo de muita coragem - como outros, nós incluídos, mais cedo ou mais tarde precisarão também. E isso faz com que não seja certo que seja para já, como não é certo que a Grécia seja bem sucedida desde já. Mas nalgum momento, nalgum local, acontecerá. Porque a roda da história não pára e, mais cedo ou mais tarde, há sempre quem decida viver corajosamente.
(a minha crónica de ontem no Expresso online)

15 comentários:

pvnam disse...

-» No presente, tal como no passado, a SOBREVIVÊNCIA é uma coisa difícil e complicada!
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A Luta pela Sobrevivência envolve:
-1- capacidade de renovação demográfica;
-2- capacidade de defesa perante aqueles que pretendem ocupar e dominar novos territórios.
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Existem conversas... com um interesse um bocado limitado... por motivos óbvios:
- TODAS as Identidades Autóctones devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta... inclusive as economicamente pouco rentáveis!!!
{nota: e inclusive as de 'baixo rendimento demográfico' (reprodutivo)}
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Quando falamos nas Identidades Autóctones europeias... não podemos esquecer as outras...
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É preciso dizer não a um DIREITO À SOBREVIVÊNCIA com dois pesos e duas medidas!
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Manifesto: É PRECISO DIZER NÃO AO NAZISMO-DEMOCRÁTICO... E... SIM AO DIREITO À SOBREVIVÊNCIA!
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Leia-se:
Ponto nº1:
- é preciso dizer NÃO àqueles que pretendem determinar/negar democraticamente o Direito à Sobrevivência de outros.
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Ponto nº 2:
Todos diferentes, todos iguais!...
-> Isto é: TODAS as identidades Autóctones devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta!...
Resumindo: os 'globalization-lovers' que fiquem na sua... desde que respeitem os Direitos dos outros... e vice-versa!
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P.S.
Separatismo-50-50.

Jose disse...

«Tratado Orçamental europeu, ...intocabilidade da dívida».
Numa Europa com Estados acima dos 60% endividados, a grande bandeira do progresso é mais dívida!
Ainda que para a auimentar seja preciso reduzi-la por um púdico corte.

Que coragem! Que heroicidade!

pvnam disse...

"Numa Europa com Estados acima dos 60% endividados, a grande bandeira do progresso é mais dívida!"


-> Depois de 'cozinhar' o caos..., a superclasse (alta finança - capital global) apareceu com um discurso, de certa forma, já esperado!... Um exemplo: a conversa do mega-financeiro George Soros: «é preciso um Ministério das Finanças europeu, com poder para decretar impostos e para emitir dívida».
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-> Pois... depois a IMPLOSÃO DAS SOBERANIAS... será uma coisa mais fácil..

Anónimo disse...

E dívida apareceu porquê?

Quem é que financiou essa dívida?

Foram os países com excedentes da UE que financiaram os outros países que estavam em défice.

Se há défices é preciso que alguém os financie.

Agora assumam a responsabilidade dos erros de quem permitiu a acumulação dos desiquilíbrios.

Manuel Silva disse...

Caro Alexandre Abreu:
Os EUA estão a crescer a 5%, foi revelado recentemente.
E a dívida em % do PIB é a maior do planeta, segundo sei.
Ou estarei enganado?
Mas a Reserva Federal enfrentou a crise injectando liquidez na economia.
Os resultados estão à vista.
Na Europa o caminho foi o contrário.
Sabe dizer-me se tal política monetária tinha também sido possível na Europa ou se esta não a adoptou somente por razões ideológicas?

Antonio Cristovao disse...

O aumento de gastos contabilizado nesta época festiva não bate certo com as teorias. Temos que alterar uma das duas; deixo ao leitor o mudar o que gostar mais.

Jose disse...

O ridículo da política nacional é que, sendo o consenso em matéria estratégica alargadíssino, as capelas em luta pelo poder se revestem de uns 'vapores' ideológicos para assim legitimar uma permanente contestação!

Anónimo disse...

E eu recomendo que vejam este video para bem da nossa pátria :

https://www.youtube.com/watch?v=Zs5tqFuVSh8

BES

SÓCRATES

ESTADO DA (IN)JUSTICA

Anónimo disse...

"Porque a roda da história não pára e, mais cedo ou mais tarde, há sempre quem decida viver corajosamente."

Sem dúvida!
Nos anos a seguir ao 25ABRIL, os mesmos tubarões que agora nos sugam, obrigavam-nos a pagar antecipadamente as nossas importações de alimentos.
Lembro-me de estar nas filas para comprar leite e, depois de vê-lo esgotado, comprar leite em pó.
Mas apesar de tudo o que passei, talvez animado pela liberdade recentemente conquistada, não morri, nem minha mulher e filhos.
Aguentámos, como tantos outros milhares, milhões, mas com coragem e esperança.
Agora, estou ainda na disposição de enfrentar, com privações, essa cambada de sanguessugas, que inundaram o país de dinheiro para agora nos sugarem tudo o que com esforço e sacrifício foi construido ao longo de muitos anos.
Já faltou mais para equipararmos a nossa libertação do fascismo com a cada vez mais urgente libertação desta Europa fascista e ditadora!
Pode ter chegado o tempo, na Grécia como nos restantes países dominados. Oxalá, porque "há sempre quem decida viver corajosamente."!

Anónimo disse...

Jose deve sentir-se compelido a repetir de forma assaz curiosa o discurso de cavaco.E não só.

Com efeito este último, misto de sinistra e mentecapta criatura,apela e faz referência a um "alargadíssimo" consenso nacional, à defesa dos compromissos posteriores às eleições entre os "partidos tradicionais" (o arco de governação segundo o léxico do dito cujo) e mais o mais do resto com que presta serviço a quem manda.

jose repete os mandamentos da cavacal personagem.Com mais colorido é certo,porque o mestre é de facto medíocre e monótono.

O consenso alargadíssimo vai no trilho do "alargadíssimo" consenso do ex-presidente do conselho , do sócio de oliveira e costa e do actual presidente da república: É todavia uma mistificação de quem anda a espalhar os caminhos únicos,por entre as ameaças aos contestatários de tais únicos caminhos.
(Consenso "alargadíssimo" em matéria estratégica uma ova,; perdão,uma treta para repetir o linguarejar típico)

Os "vapores ideológicos" poderia ser a pedra de toque pretensamente original.Engano puro.Porque a seguir a tal expressão vem outra em que se afirma a "permanente contestação".
E aí percebemos que afinal não é só cavaco que jose anda a replicar.Também o faz em relação a portas, aquele submarino personagem que tem colado à pele as qualidades dignas dum verdadeiro don corleoni.Que também curiosamente volta e meia se queixa mais ou menos do mesmo.

Disso e da Moderna, Portucale, Pandur, Jacinto Leite Capelo Rego....

De

Anónimo disse...

http://www.project-syndicate.org/commentary/dani-rodrik-on-the-large-dangerous-external-imbalances-that-underpin-the-fastest-growing-economies--performance

Excelente artigo que desmonta o argumento da Alemanha como modelo.

E já agora, também do Rodrik este excelente trabalho.

http://www.nber.org/papers/w5537.pdf

Resumindo: querem menos estado, então reduzam a abertura da economia e protejam a indústria doméstica das importações baratas e da competição "desleal" dos chineses.

Alguém que diga ao cervejeiro que não se pode ter mais peso das exportações no PIB e menos Estado.

Anónimo disse...

Infelizmente esta tentativa de mostrar a governança neoliberal como carente de alternativas não passa dum estratagema profundamente ideológico, inatamente desonesto e subrepticiamente tenebroso.

Quem escreve,como comentário a este texto de Alexandre Abreu algo como isto:

"a grande bandeira do progresso é mais dívida!"

É porque simplesmente não leu o texto,porque o não compreendeu, porque opta pela manipulação ou simplesmente porque repete aquilo que repetem cavaco, portas, passos. Duma forma que foge sistematicamente do que de essencial têm os textos, do que é factual nestes, do que é central no debate.Refugiando-se, já não no que se escreve, mas sim no slogan propagandista que tenta apresentar a sua leitura perversa, manipuladora,falsa e mistificadora do real.

De facto perante a realidade só resta isto - a fuga e/ou a criação duma outra realidade.
E quantas vezes a ameaça.

De

Jose disse...

De personagem em personagem~, de acontecimento em acontecimento ficciona DE percorrer uma panóplia de ideias sem que em fimal se venha a conhecer nem o que defende nem a que se opõe.
Uma espécie de raposódia de sons extraídos de uma qualquer 'revista de imprensa'.

Anónimo disse...

talvez valha a pena descascar

http://run.unl.pt/handle/10362/7165

Anónimo disse...

Infelizmente para alguns a livre opinião ainda é um direito.

Infelizmente para alguns, os factos ainda podem ser relatados.E sendo a imprensa na maioria dos casos o veículo fiel da voz do dono, a realidade factual não pode ser escondida atrás das referências canhestras a "revistas de imprensa" com que esses alguns tentam esconder a referida realidade.

Sobrou por aí a irritação manifesta de alguém perante a denuncia do caso dos submarinos e perante o comprometimento de Portas em todo esse esterco.

Apareceu por aí em letra de forma a ameaça manifesta face a quem se opõe à via de sentido único protagonizada pela governança neoliberal e extremista.

A exigência de novos rumos é um dever cívico e ético. Talvez "2015 seja o ano em que os povos da Europa começarão finalmente a enfrentar a sério as estruturas que os têm subjugado. Será um ano que exigirá grande coragem."

Por isso também se tornam vãos e patéticos os "esforços" para acoitar um grande consenso nacional sobre o que quer que seja, como o expressado pelo cavaco e alguns dos seus. Os "vapores ideológicos " funcionam assim como uma cortina de fumo para apagar o que de facto é diferente.Que se assume com orgulho como diferente.Que exige a ruptura com os corruptos e exploradores que nos governam e se governam.

Talvez estes exercícios de nivelar e de "consensualizar", mais não traduzam o receio que o espartilho, também mediático, em que o poder troikista tentou acantonar o país e os portugueses, possa quebrar e ser feito em fanicos.

Talvez haja receio que os "consensos" de cavaco e dos seus vão ao fundo como os submarinos corruptos, o saque dos agiotas e a subserviência aos credores.

Talvez a "incompreensão" pelo que os outros defendem ou criticam seja um outro sintoma de tal perturbação,pela manifesta e atabalhoada incompetência analítica.

O ano de 2015 exigirá de facto coragem.

Vamos a isso.

De