domingo, 16 de abril de 2017

Ainda sobre o Nacionalismo e a Esquerda


A questão do nacionalismo, apesar de sempre latente na discussão à esquerda, foi no espaço destas últimas semanas convocada para o centro do debate político. Para isso contribuíram decisivamente as discussões em torno do Euro e das eleições francesas, após a escalada eleitoral de Jean-Luc Mélenchon.

Na polémica do Euro, racionalidade económica aparte, os detratores do nacionalismo como instrumento político progressista consideram que qualquer apelo à transformação política a partir da escala nacional – em particular, na frente monetária – é um favor ao nacionalismo de direita e à xenofobia que alastra pela Europa.

Em França, a hipótese de existir uma segunda volta opondo Le Pen a Mélenchon levou a imprensa nacional e internacional a ensaiar uma narrativa perigosa, onde se sugere que os candidatos têm mais semelhanças do que diferenças, sustentando-se nas posições críticas que ambos os candidatos têm em relação à União Europeia e aos novos acordos de comércio transatlânticos.

Ora por receio genuíno ora por mera conveniência política, ambas as análises partilham a ideia de que é impossível eleger o argumento patriótico como instrumento político sem resvalar para uma deriva necessariamente conservadora e avessa aos valores progressistas.

A desconstrução deste argumento já foi eficazmente conduzida pelo João Rodrigues neste blogue (aqui e aqui) onde releva o caráter múltiplo do conceito de Nacionalismo, rejeitando uma interpretação única do conceito, e se opõe às comparações entre os discursos de Le Pen e Mélenchon.

O meu contributo para este debate é trazer à discussão outros momentos da história em que o argumento patriótico e o progressismo andaram lado a lado. Em particular, creio ser oportuno lembrar este excerto de Eric Hobsbawm em A Era do Capital, a propósito da relação entre a consciência política de massas e o movimento de criação de estados-nação durante o século XIX:

«Apesar do Manifesto Comunista ser mais realista do que por vezes se supõe, ao afirmar que "os trabalhadores não têm pátria", provavelmente o nacionalismo desenvolveu-se na classe operária pari passu com a consciência política, quanto mais não fosse porque a própria tradição revolucionária era nacional (como em França) e porque os ideólogos e os chefes dos novos movimentos dos trabalhadores estavam quase todos profundamente envolvidos na questão nacional (…). A alternativa que se punha à consciência política nacional não era, na prática, o internacionalismo da classe operária, mas sim uma consciência sub-política que continuava a operar numa escala muito mais reduzida. (...) Os homens e mulheres que da esquerda política que fizeram uma escolha clara entre a lealdade à causa nacional e a lealdade à causa supra-nacional, ou causa do proletariado internacional, eram poucos. O "internacionalismo" da esquerda significava na prática solidariedade e apoio àqueles que lutavam pela mesma causa noutras nações. (...) No entanto, como no-lo provam os exemplos de Garibaldi [e] de Clusuret da Comuna de Paris (…) isto não era incompatível com uma fé nacionalista apaixonada. Em certos casos, equivalia também a uma recusa em aceitar as definições de "interesse nacional" apresentadas pelos governos e por outros. (...) A Comuna de Paris apoiou-se no patriotismo Jacobino de Paris, e não apenas nos slogans de emancipação social, e os Sociais-Democratas marxistas alemães de Liebknecht e Bebel derivaram grande parte do apoio que obtiveram do seu apelo ao nacionalismo radical-democrático de 1848, contra a versão prussiana do programa nacional. Os trabalhadores alemães guardavam rancor contra a reacção, e não contra o patriotismo alemão; um dos aspetos mais inaceitáveis da reacção consistia em chamar aos Sociais-Democratas "companheiros sem pátria", negando-lhes assim o direito a serem não só trabalhadores, como bons alemães.»

Sobre as palavras do historiador britânico, é importante reter o que se segue: em primeiro lugar, o sentimento patriótico e a consciência política de índole progressista (consciência de classe, para quem preferir o termo) não se opõem; pelo contrário, elas podem crescer de modo concomitante. Na verdade, o argumento patriótico, e a tremenda força agregadora que ele congrega, pode ser uma alavanca propulsora de apoio a transformações sociais e políticas que, em si e num primeiro momento, não beneficiariam do apoio necessário à sua concretização. Em segundo lugar, não é verdade que as pessoas confundam e interpretem como iguais programas diferentes, apenas por terem em comum o elemento patriótico. Assim como os trabalhadores alemães do século XIX souberam distinguir o nacionalismo prussiano de Bismarck do apelo patriótico socialmente emancipatório dos Sociais-Democratas, também os franceses contemporâneos sabem que não há comparação possível entre a crítica de Le Pen à União Europeia, sustentada no racismo e na xenofobia, e a crítica de esquerda protagonizada por Mélenchon, que mostra que as regras económicas e comerciais da UE são avessas aos interesses dos trabalhadores franceses.

Nos últimos anos, a esquerda tem vivido a frustração de ser incapaz de mobilizar as pessoas em torno de questões essenciais para as suas vidas, mas que são percecionadas como demasiado distantes, técnicas e ininteligíveis pelo cidadão comum. Quem já tentou mobilizar a partir de temas como a dívida pública ou as regras orçamentais europeias sabe do que falo. Estou convencido de que uma estratégia que ultrapasse este problema tem de ser sustentada na criação de um programa que consiga aliar uma forte componente de justiça social e económica com uma dose certa de resistência patriótica que, pelo seu enraizamento no imaginário popular, inflame a mobilização que a primeira, por si, não consegue desencadear. Mais irresponsável do que manobrar o argumento patriótico em nome do progresso social, é deixá-lo à exclusiva mercê daqueles que usarão a sua atratividade para fins menos nobres. Isso, sim, será fazer o jeito a Le Pen e aos seus seguidores.

14 comentários:

Anónimo disse...

Ainda sobre o nacionalismo
O problema não e´ a Pátria, pois todos sabemos que o capital não tem pátria, o problema e´ a exploração do homem pelo homem, e´ o domínio do capital sobre o trabalho.
Quando o capital financeiro percebe que a sua hegemonia esta´ a eclipsar-se, serve-se de todo o arsenal antiprogressista existente, incluindo violência armada, para dissuadir quem se lhe opõe, seja aqui ou em qualquer país. Ouvi muito disso no chamado Verão Quente de 1975 ate´ da boca dos ditos “pais da democracia”. Nada de revoluções, nada de Povo/MFA, nem um cheirinho de Abril de 1974. E a história explica isso muito bem explicadinho, lembrai o Chile de Salvador Allende. de Adelino Silva


Jaime Santos disse...

O problema é que a noção de comunidade nacional tem a ela associada um conjunto de mitos que representam a negação dos valores universalistas e do espírito crítico do Iluminismo pelos quais uma Esquerda que mereça esse nome se deve bater (não me refiro obviamente ao Estalinismo, que usou e abusou do nacionalismo para conservar o poder e que não passava de uma forma de obscurantismo). Essa noção define-se sempre em contraposição ao outro, o estrangeiro. E convém não esquecer que esses valores mudam, e aquilo que poderia ser considerado progressista no sec. XIX será simplesmente visto como chauvinismo hoje. Lembro-lhe também que aqueles que esperavam que o internacionalismo operário conseguiria deter o banho de sangue que foi a Grande Guerra rapidamente se viram rapidamente ultrapassados pelo juggernaut nacionalista (e Jaurés acabou morto). Por isso, quem quiser manipular um cesto de serpentes que não se espante se acabar mordido pelas mesmas (cuidado com a 'inflamação das massas')... É que infelizmente, não é possível fazer uma separação cirúrgica entre o nacionalismo progressista de que fala e o nacionalismo reacionário. Até porque vale a pena lembrar sempre em que se tornaram muitos dos nacionalismos progressistas no terceiro mundo. Isso mesmo, transformaram-se em cleptocracias reacionárias onde o sentimento nacional é utilizado para calar quando não liquidar as vozes críticas...

Jose disse...

Depois de décadas de elaborados estudos para tornar intelectualmente sofisticado e apetecível o imperialismo russo, a esquerda vai derivando para simplificações que conduzem a uma salada ideológica que não rejeita nada do que possa conduzi-la ao poder.
Da geringonça ao nacionalismo tudo cabe à mistura com Assad e Putin e Maduro e …

Anónimo disse...

As sociedades foram se desenvolvendo muita lentamente, umas mais outras menos e por isso mesmo, o nível de desenvolvimento e conhecimento não poderiam ser iguais. A própria geografia da natureza implicou no seu assentamento.
O nacional e ou nacionalismo aparecem não de forma determinista ou determinante, eles são de géneses várias. Nem sequer e´ determinado pela origem – Família, Propriedade ou Estado mas sim resultado do imaginário em nós existente.
Essa coisa de nacionalismo de esquerda ou de direita só tem cabimento em sociedades altamente famintas de conhecimento humanista e histórico.
Levamos séculos a fazer e desfazer fronteiras territoriais, Cidades-Estado, Estados-Nação e Impérios, só ainda não tratamos conveniente e objetivamente da mente humana. Foi o que foi! de Adelino Silva

Álvaro disse...

Além de tudo isto e do que consistentemente o JR aqui vem expondo, caberia aos que confundem depreciativamente política democrática com nacionalismo explicarem como é que pretendem introduzir controlo democrático na UE. Sabendo que todas as tentativas falharam em condições politicamente mais favoráveis em que a construção da governança neoliberal na UE não estava ainda tão avançada. Ou seja, como é que R. tavares, Varoufakis, a social democracia e os verdes de esquerda e tutti quanti pretendem ganhar músculo e intervir na relação de forças que nunca foi tão desfavorável como hoje? Enquanto não o explicarem de forma convincente só têm boas intenções, impotência e capitulação para oferecer, abrindo o caminho à direita.

Anónimo disse...

"Ismos" a rejeitar, na lógica do omnipresente Santos:

- Há que rejeitar o nacionalismo progressista, porque não é possível separá-lo cirurgicamente do nacionalismo reaccionário e porque muitos dos nacionalismos progressistas, no terceiro mundo, se transformaram em cleptocracias reaccionárias onde o sentimento nacional é utilizado para calar quando não liquidar as vozes críticas.

- Há que rejeitar o internacionalismo progressista, porque há um século foi rapidamente ultrapassado pelo nacionalismo reaccionário - não conseguindo deter o banho de sangue que foi a Grande Guerra -, porque aquilo que poderia ser considerado progressista no sec. XIX será simplesmente visto como chauvinismo hoje e, enfim, como toda a gente sabe, porque é preciso cuidado com a 'inflamação das massas'.

"Ismo" a apoiar, por exclusão de partes, segundo a lógica do omnipresente Santos:

- O anti-nacionalismo anti-progressista, que representa a afirmação dos valores universalistas e do espírito crítico do Iluminismo pelos quais uma Esquerda que mereça esse nome se deve bater para conservar o poder, é inspirado numa noção de comunidade internacional não associada a nenhum conjunto de mitos e, sem dúvida, nada tem a ver com cleptocracias reaccionárias em que as vozes críticas são caladas, quando não liquidadas.

A.R.A revolução disse...

Existem 2 conceitos que se tendem a confundir amiúde numa discussão ideológica de carácter predefinido na semântica discursiva dos políticos Franceses (e não só!) que por subversivas razões para uns e por distracções "convenientes" para outros, confundem o eleitorado que optará por ultima instância ou pela clubite partidária ou pela ideia politica eficazmente desconstruída pela sua retórica simplificada com uma ou varias mensagens "slogan" : Nacionalismo vs Patriotismo.

No mundo de hoje, a informação viaja à velocidade de um click onde ideia base dispensa o "acessório" que a sustenta, enviesando perigosamente para, na pratica, a teoria do Caos em que um simples rumor agita mercados, faz cair governos e cria uma instabilidade social propicia a extremismos. Poder-se-a dizer que a culpa é da esquerda (lampião da defesa das liberdades) que se aburguesou e ostracizou parte da sua família por esta não compactuar com determinadas "ideias" de ser progressista num mundo cujo o capital é a base do sistema económico-social vigente, ou, por outro lado, que esta optou por um "autismo" ideológico pela simples razão de sobrevivência num mundo que a caracteriza como apenas e só uma força cristalizada por um punhado de indefectíveis que apenas existe para se afirmarem do contra por razões clichê e retóricamente gastas designadas por K7's.

Mas aqui chegados, compreendemos facilmente que o Manifesto Comunista continua "infelizmente" bastante actual onde os trabalhadores da "jorna"deram lugar aos trabalhadores "precários" ou, pior, que a sociedade de consumo que é a base do grande capital aceita como facto adquirido a laboração 24h por 7 numa nomenclatura assente nos desígnios da venda e da procura onde os gastos são racionados para uma maior valorização das vendas e é este o verdadeiro busílis desta Europa não só Francesa mas sim Europeia onde o valor do trabalho é desvalorizado economicamente e acicatado socialmente o seu peso na sociedade ora por via de Nacionalismos proteccionistas que derivam inevitavelmente em xenofobia contra emigrantes ou em visões estratificadas por "castas" sociais de mobilidade nula num retrocesso atroz ao codigo do trabalho e do direito ao mesmo.

Por isso, afirmar Proletários de todo o mundo Uni-vos! continua bastante actual ... infelizmente!

A.R.A revolução disse...

Alvaro

Que é lá isso de « introduzir controlo democrático na UE »?

A UE é de direita portanto não faz sentido essa sua "preocupação" de caminhos abertos pelo que esses seus "tutti quanti" estão mais para o "Tutti frutti" se pensa que são os Varoufakis e afins que seriam o ponto de viragem pois o declínio das esquerdas representadas no parlamento europeu deveu-se e devem-se ao desmoronar dos grandes partidos sociais-democratas e socialistas que ao querem ser tão centro-esquerda liberal, resvalaram para uma direita "light" neo-liberal obrigando a direita europeia a uma cómoda metamorfose de tal forma populista que, com o passar do tempo em poder, em muitos casos já ultrapassam a já muito ténue linha que as separava da da extrema direita, e pior, sentem-se confortáveis com isso, suportadas por um eleitorado cada vez mais radical que foi educado com as crises do capital, perdão, do sistema financeiro.

Se o Alvaro ainda necessita de explicações para o óbvio não será de certeza algum dos seus mencionados "Tutti quanti" a iluminarem as suas "duvidas" "Tutti frutti".

Álvaro disse...

Caro ARA revolução - tenha calma, não se excite. Tente ler e compreender o que os outros escrevem. Verá que o ímpeto evangelizador não se justifica, pelo menos no que me diz respeito. 1 abraço

José Fontes disse...

O nosso troll José regressou das férias pascais.
Mas não mudou o registo das insanidades em que labuta, como se pode ler no comentário que deixou às 11:33.
Ora leiam mais este seu artigo de tão brilhante mente no jornal online Observador:
«Mas quem haveria de pagar?»
João Pires da Cruz
http://observador.pt/opiniao/mas-quem-haveria-de-pagar/
Reparem bem no sorriso de palerma e nos olhinhos de estúpido.
Grande cromo.
E o que é que poderia sair no artigo?
Mais uma peça da «teoria económica da merda», investigação a que o cromo se dedica desde há algum tempo para dar um contributo para a consolidação da economia de casino em que vivemos.
Que conclui o cromo?
Que os beneficiários do apoio do Estado à banca não foram os accionistas, nem os gestores, nem os trabalhadores bancários, fomos nós, que metemos o dinheiro dos nossos impostos mesmo que não tenhamos contas nem poupanças nos bancos.
Brilhante!
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Nota: Este é o José deste blogue.
No blogue Aventar é JgMenos - nickname que já usou aqui, por engano, e que, ao ser desmascarado, não negou que era a mesma pessoa.
Em tempos, quer no extinto blogue Arrastão, quer no ainda vivo Quarta República, que deixou de frequentar ultimamente, usava o nickname Tonibler.
O troll tem uma imaginação muito fértil.

A.R.A revolução disse...

Alvaro

Opinei sobre a sua ideia e logo o Alvaro pré-defeniu que eu seria mais um comuna de K7 em riste para lhe mostrar o caminho da salvação. Ehehehe! Não se apoquente amigo que embora não seja como uma Ilda ou um qualquer Vital guardo as minhas convicções para mim mas opino sobre o que acho que devo opinar ... mesmo estando contra qualquer controlo democrático, senão se importa!Eheheh!
Portanto "Evangelizar" não será de certo o termo mais correcto para a minha critica ao seu escrito, que se tinha intenção de alcançar algo mais do que entendi peço-lhe as minhas escusas por não ter capacidade erudita o bastante para lá chegar.

Apenas destaco, baseado no que li e entendi, que, quanto a mim, o Alvaro faz as questões erradas baseado em pressupostos desfasados da realidade pois, por ex., desde a criacção da UE que esta nunca foi de esquerda ... quanto muito foi de centro esquerda e isso faz toda a diferença para o que escreveu ... com ou sem ironia.

Abraço

A.R.A revolução disse...

Jose Fontes

Também eu era um assíduo comentador no defunto Arrastão e foram varias as vezes que dei de "caras" com ambos personagens alegóricos (Tonibler e Jgmenos) que menciona e, ao contrário dos demais, sempre achei utilidade na sua verborreia mais não seja para não nos esquecermos como pensam(?) aqueles que em 4 anos nos deram a visão do precipício ao ponto de possibilitarem algo inédito ... a união das Esquerdas.

Cumprimentos

A.R.A revolução disse...

Patriotismo
- Sentimento de orgulho e amor à pátria/ aqueles que querem servir o seu país e ser solidário com os seus compatriotas.
Nacionalismo
- Ideologia que enaltece o estado nacional como forma ideal de organização política, com suas exigências absolutas de lealdade por parte dos cidadãos baseado em vínculos raciais, linguísticos e históricos

Ricardo Noronha disse...

Diogo, quem te lesse poderia ser levado a julgar que a I Guerra Mundial nunca existiu. Olha que não faltaram argumentos patrióticos de esquerda para a justificar, de um lado e do outro. Isso não retira validade a vários argumentos em favor de um reforço da soberania aqui e agora? Talvez não, mas deve pelo menos ser tido em conta no momento de formular uma proposta política que vá nesse sentido. Não é assim tão fácil delimitar o patriotismo bom do nacionalismo mau quando se deambula pelas esquinas sinuosas da história.