terça-feira, 10 de outubro de 2017

Como se nada fosse

A comentadora económica da Antena 1 Helena Garrido deu um exemplo para explicar ideias do recém-nomeado Prémio do Banco Central da Suécia para as Ciências Económicas, o economista norte-americano Richard H. Thaler.

A ideia era mais ou menos esta:

Os modelos económicos dizem que se os trabalhadores aceitassem uma redução dos salários, o desemprego não subia tanto. Mas como os trabalhadores consideram que isso não é justo, não aceitam. E geram mais conflitualidade, prejudicando a vida das empresas. Por isso, é que se diz que os mercados devem ser flexíveis, para que possam gerar todos esses efeitos. Mas o pensamento das pessoas também tem um papel.

Ou seja, os trabalhadores tomam decisões irracionais - impedir que os salários desçam - porque acham que não justas. E essa decisão não seria justa porque estaria a impedir o emprego (barato!) do próximo. Por outras palavras, é apresentado aos trabalhadores um - falso - dilema, de forma a que a parte do capital no produto criado se mantenha constante...   

Na cabeça da Helena Garrido nem por sombras se questiona aquilo que ela designa por modelos. Todos os modelos - simplificações da realidade usadas para tentar prever o futuro - têm subjacentes pressupostos e sistemas de ideias, algumas mesmos ideológicas. Mas chamar-lhe modelos dá-lhe uma patine de universalidade e infalibilidade que esses ditos modelos estão longe de ter. Sobretudo quando as ideias subjacentes são aquelas em que Helena Garrido foi formada (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa).

Veja-se a conjuntura de 2010 a 2013 em Portugal.

Os modelos aplicados tinham essa ideia precisamente: corte-se nos salários, desvalorize-se a remuneração do trabalho e a economia crescerá. Porquê? Essa parte não era totalmente dita: porque esse corte salarial se traduz numa apropriação pelas empresas de valor criado, e essa apropriação poderia - poderia... - gerar mais investimento.

E a vida das pessoas que recebem salários? E a desigualdade de rendimento? E mais não seja, o papel impulsionador da procura interna gerado pelos rendimentos do trabalho? Como crescer se a procura interna for deprimida?

Perguntas básicas e essenciais. Mas a Helena Garrido estava longe de as aceitar como tal. E por isso defendeu sempre o contrário. Vejam-se alguns exemplos:

“Tudo seria mais simples se o despedimento individual fosse, mesmo que marginalmente, flexibilizado. E as indemnizações reduzidas para todos com a justiça a garantir que seriam pagas” (25/1/2011).
“Claro que é preciso alterar a legislação laboral para permitir que se possa reduzir salários. (...) E a folha [de salários] é, frequentemente, a única parcela dos custos em que podem mexer” (18/11/2011).
"Por outro lado, essa pressão sobre o mercado de trabalho tem outras vantagens como a descida salarial para evitar a subida do desemprego (16/4/2012)
“Os salários dos funcionários públicos vão ter de ser cortados tal como as pensões de reforma. De forma definitiva” (21/2/2014).
“Proibir o despedimento, congelar rendimentos ou regras de aumentos salariais quando a empresa vende menos ou o Estado recebe menos impostos, ou tem de gastar mais para apoiar quem mais precisa, é reivindicar o direito a ter sol todos os dias” (7/3/2014).

O que aconteceu a seguir todos sabemos: uma depressão económica nunca vista antes. O investimento caiu a pique! A destruição de 400 mil postos de trabalho desde 2010 a 2013, a criação de um exército de reserva de 1,5 milhões de pessoas que queriam trabalhar ou trabalhar mais e não podiam.

A consequência disto foi uma emigração histórica que ainda ocorre, uma redução nunca vista dos salários nominais (cada novo contrato que se cria, tem uma remuneração mais baixa que o anterior), uma perda continuada de população com o consequente envelhecimento social, que põem em perigo os equilíbrios sociais, de protecção social e até orçamentais. A ponto de terem sido invertidas desde 2013 pelos seus defensores.

Eis os modelos da Helena Garrido. E as ideias que, apesar de tudo o que geraram, continuam a ser vendidas como se tivessem sido validadas pela realidade...

14 comentários:

Anónimo disse...

gente muito porca. mas sempre com espaço para difundir a sua sharia. seja a garrido, seja a matos, seja o das neves.

paasa disse...

O que me parece grave é mesmo a ideia de que o "modelo" funcionou, e que só não se resolveram os problemas todos da economia do país porque o governo anterior não foi ainda mais longe. E isso vê-se claramente na apologia quase religiosa como esses "comentadores" falam do legado do ex-primeiro ministro.

Jose disse...

«esse corte salarial se traduz numa apropriação pelas empresas de valor criado, e essa apropriação poderia - poderia... - gerar mais investimento.»

poderia...evitar uma falência - também é uma possibilidade.

Tudo o mais é uma salada.
Pegando no tema indemnização por despedimento: o choradinho dos baixos salários significa que trabalhando 11 meses (menos feriados, assistências várias,...) o trabalhador é pago com 14 -meses +27,27% - e ainda ficava (para quando a reversão?) com mais um - 15 meses +36,36% - para levar para casa se fosse despedido. Juntem-lhe as alcavalas e saber-se-à qual o custo dos baixos salários neste país de disfarce e sofisma.

E sempre vem o argumento inevitável: despeje-se dinheiro e a procura trará emprego!
Donde vem o dinheiro pouco se questionam os analistas, e se é o investimento que desce e a dívida que aumenta, o problema são as regras de Bruxelas...apesar da bondade das 'políticas alternativas'.

João Ramos de Almeida disse...

Caro José,
O argumento dos trabalhadores que recebem e não trabalham lembram-me uma velha anedota em que se retirava os dias feriados, os dias de férias, os fins de semana, mais os dias de doença e ... chegava-se à conclusão que apenas uma pessoa - quem contava a anedota - trabalhava. Tão velho, tão a leste da realidade!

Basta olhar para a realidade pós 2015. Mas enfim, o melhor é mesmo voltar a 2010 e aplicar tudo outra vez. Talvez acabemos com o país de uma vez por todas.

Geringonço disse...

Como eu adoro ver a Helena Garrido e os outros comentadores moralistas tachistas pífios a dissertarem sobre os rendimentos de quem trabalha!
É um show de mediocridade e vigarice como poucos!


João, "exercício de reserva de 1,5 milhões de pessoas" não será exército?

Anónimo disse...

Algumas das declarações da Helena Garrido são um pequeno vómito. Suporte mediático utilizado para aquela espécie de génio de nome Passos Coelho na sua acção governativa neoliberal e criminosa

Que depois apareça aí alguém a repetir o faduncho do patronato (aqui notoriamente reles) exalando as saudades patronais pelo tempo da revolução industrial é a prova provada da qualidade desta gente.

Dos seus planos. Do que os move e do que esperam


Entretanto veja-se como se processa a distribuição da riqueza nacional. Veja-se como a transferência se processa de baixo para cima.

E veja-se como esta gente do patronato, assumindo-se claramente na ala mais extremista da sociedade. assume que o seu voto se passou para Passos Coelho.

Tal como denunciado por um insuspeito Pacheco Pereira

João Pimentel Ferreira disse...

Antes dos modelos estão as correlações estatísticas fáceis de aferir. E se fizer uma correlação entre flexibilidade laboral e taxa de desemprego, verá que existe claramente uma relação inversa. Nos EUA (selva liberal cujo modelo laboral não defendo) o desemprego é baixíssimo (cerca de 4%), mesmo no Reino Unido o desemprego é muito baixo (cerca de 4,5%), e a flexibilidade laboral inglesa permitiu absorver milhões de trabalhadores jovens provenientes dos países do sul (uns mal pagos, outros nem por isso). 80% dos emigrantes jovens lusos, foram para o Reino Unido. Por isso sim, a rigidez laboral, é de facto, um benefício em que os que têm emprego (os mais bem qualificados ou funcionários públicos) não aceitam que os menos qualificados (mais pobres) acedam ao mercado de trabalho. E repare que isto não são modelos, como dá a entender, são meras correlações estatísticas.

Jose disse...

Caro João,
O seu mal entendido não é bem entendido; o choradinho dos baixos salários não pressupõe não trabalhar.
É só choradinho e esse é o óbvio entendimento e prática esquerdalhada lusa.

A.R.A revolução disse...

Hoje C.Carvalhas alertou para algo que custa a muito boa gente admitir (ex. Helena Garrido e afins passistas e outros coiso & tal ao invés de fazerem aviso do diabo deviam era por os olhos nas diatribes que defendem) que, a pretexto de Trichet, ficou o mote do essencial, com a manutenção de baixos salários e um consumo assente no crédito vamos, outra vez, num prazo de 2 anos, voltar a ter outra crise e esta ainda bem mais profunda pois o BCE já não terá "munições" suficientes para novos resgates.

Moral da História: não se aprendeu nada com o passado recente mas ... também como podia se os culpados continuam a frente das instituições de poder, impunes.

https://www.tsf.pt/economia/interior/esta-tudo-criado-para-vir-ai-uma-nova-crise-8830710.html

A.R.A revolução disse...

paasa

O seu comentário acima deveria ser gravado em pedra para memoria futura dos menos crentes pois o diabo existe mesmo e que as gerações vindouras saibam que ele pisou esta terra, recentemente, entre os anos do Senhor de 2011 a 2015, onde fez politica de terra queimada, engolindo pessoas e sugando as suas vidas querendo que o seu malévolo oficio fosse para além do próprio inferno.

A única coisa boa de PPC foi de lembrar as pessoas de não darem as suas vidas numa liberdade de deveres e numa democracia com direitos como um facto garantido pois o diabo continuará sempre à espreita por nova oportunidade e que senão aparecer ele fará de um tudo para que apareça.

Vá de recto paasa! Vá de recto Satanás!

(depois de 48 anos de fome e porrada basta um cheirinho a tais memórias e é vê-los aos pulos a "bufar", pois por cada "bufada" sempre se ganhavam uns trocos e com isso mexia a economia ... eheheh)

Anónimo disse...

Pimentel volta ao assunto que bastas vezes se andou aqui a discutir. Defende desta forma a flexibilidade laboral e as suas magnificências para resolver o problema do desemprego

Percebe-se por que o faz. É da escola neoliberal e o desemprego, criando um exército de mão-de-obra barata e disciplinada, cai-lhe que nem goto na ideologia que partilha com Passos Coelho.

Volta com as "correlações estatísticas" que foram desmentidas e que foram denunciadas. Volta com aquele jeito miserável de tentar dividir os que trabalham e voltar contra estes os desempregados que a sua escola promovr

Feito ... insulta os funcionários públicos mais os benefícios que apregoa, escondendo os verdadeiros beneficiários , a tal ínfima minoria que se apropria de 99 % da riqueza

Faz completamente jus ao denunciado por João Rodrigues.Este de facto apanhou-lhes o jeito e os trejeitos

Anónimo disse...

" (...)as relações laborais continuam a ser o elo central das sociedades capitalistas. Isto não impede, antes pelo contrário, que exista todo um esforço ideológico liberal para as ocultar. Mas de vez em quando, por denúncia de quem trabalha, o leitor tem um vislumbre do que se passa num tempo em que os freios e contrapesos legislativos e sindicais ao poder patronal foram enfraquecidos

O jornalista Manuel Carvalho argumentou recentemente que a função pública monopolizaria o debate laboral, contribuindo para invisibilizar os problemas dos trabalhadores mais pobres (PÚBLICO, 13/09/2017). Pelo mesmo diapasão alinhou a jornalista Helena Garrido, mas agora no contexto da luta dos trabalhadores da Autoeuropa, comparando os seus aparentes privilégios, a sua suposta “bolha”, à situação de trabalhadores com horários ainda mais baralhados (Observador, 31/08/2017).

A sabedoria convencional, no fundo, procura sempre atirar os trabalhadores uns contra os outros, os do público contra os do privado, os novos contra os velhos, os precários contra os que conquistaram alguma, cada vez menor, estabilidade. Trata-se, no fundo, de dividir, enfatizando divisões horizontais e ocultando as mais importantes desigualdades verticais, para que quem está verdadeiramente em cima, o capital, possa reinar numa paisagem laboral também desta forma cada vez mais degradada. É a mesma ideologia que apoda de rígidas as regras que conferem algumas garantias aos que vendem a sua força de trabalho e de flexíveis as regras que conferem mais direitos e poder aos que a compram. De facto, não há relação mais política e onde haja mais investimento ideológico do que a laboral, nem relação que determine mais aquilo que os indivíduos podem ser e fazer. Por exemplo, é sabido, por vários estudos, que a precariedade laboral faz mal à saúde física e mental de quem é dela vítima ou que tende a gerar menos incentivos para incrementos da produtividade(...)"

Lemos o texto de João Rodrigues e reparamos que aqui está em todo o seu esplendor a denúncia da estratégia argumentativa dum que vai variando de nick de acordo com a audiência e com a propaganda a atingir.

Porque também em questões éticas Pimentel é muitíssimo diferente de João Rodrigues

Anónimo disse...

Há uma última nota a registar:

O desmontar paciente e comprovado das tretas da flexibilidade laboral e da sua correlação com o emprego ,apregoado desta forma pseudo-científica por PImentel foi, como se disse, alvo de inúmeros debates.

Como aqui se comprova:

http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2017/08/precariedade-e-um-conceito-bem.html

http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2017/09/falsa-questao.html

https://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2017/09/e-pur-si-muove-o-mercado-de-trabalho-e.html

Anónimo disse...

(Quanto ao choradinho citado pelo Jose... a sua colagem a Passos Coelho mantém-se no seu perfil argumentativo... Passos ficará contente, logo José também)