domingo, 8 de abril de 2018

Vive la France insoumise!


Do Financial Times – “uma vitória de Macron ressoará por toda a Europa” – à The Economist – “a reforma dos caminhos-de-ferro é só uma parte de um esforço maior para reformatar o Estado Providência” –, a persistente atenção da imprensa financeira britânica às lutas de classes do outro lado da Mancha ajuda a compreender bem a natureza do programa da grande esperança do europeísmo, incluindo de certa esquerda, a que já perdeu todas as referências e todas as razões de ser.

A história repete-se desde os anos oitenta: trata-se de estilhaçar os grandes focos de organização e resistência laboral para fazer avançar o programa de neoliberalização, de resto inscrito na lógica da integração europeia realmente existente. Os serviços públicos são sacrificados no altar da abertura de novos sectores ao capital, com os resultados negativos que se conhecem.

Uma parte maioritária da opinião pública francesa, que compreende o que está em causa, apesar da barragem mediática, apoia por isso a resistência dos ferroviários franceses e o seu movimento grevista, que pode bem estar a alastrar. Esconjurar o espectro de 1995, o recuo perante grandes mobilizações, está presente nas câmaras de eco dos interesses dominantes.

Entretanto, e como sublinha Jacques Sapir, as reformas de Macron para os caminhos-de-ferro não podem ser compreendidas sem as directivas europeias tendentes a liberalizar este sector, aprofundando a lógica perversa do mercado único. Por isso, tem razão quando diz que este movimento grevista é objectivamente também um movimento contra a União Europeia.

No fundo, as coisas estão ligadas: uma vitória de Macron é uma vitória da UE realmente existente, com impacto negativo fora de França; uma derrota de Macron é uma derrota da lógica neoliberal inerente à integração, com impacto positivo fora de França. É por estas e por muitas outras que as esquerdas que querem contar só podem ser tão anti-liberais quanto eurocépticas.

Como já aqui argumentei, precisamos sempre de uma França insubmissa.

12 comentários:

Anónimo disse...

Bom post para "remettre les pendules à l'heure"!

A referência ao post de Jacques Sapir é oportuna até porque as suas análises são sempre de uma grande pertinência.
S.T.

Anónimo disse...

Muito bom

Jose disse...

«os grandes focos de organização e resistência laboral» estão onde a greve causa o maior dano ao maior numero: transportes e serviços sociais.
É lá que a comunada assenta arraiais.

Anónimo disse...

Mas, tovarich José, precisamente o que João Rodrigues e jacques Sapir dizem é que o combate dos ferroviários franceses tem um significado que vai muito além da defesa dos seus direitos laborais.

Na realidade o que está em jogo é a submissão da França à lógica absurda, que já impera na Alemanha, de alargamento das desigualdades sociais e submissão aos ditames ideológicos da EU, por mais descabelados que eles sejam, como demonstra Jaques Sapir no seu blogpost. De facto o post de Sapir evidencia a ligação entre as supostas "reformas" de Macron e as directivas europeias sobre o transporte ferroviário e a obsessão em instalar no sector uma pseudo concorrência que tão maus resultados deu por exemplo em Inglaterra.

Outros exemplos de pseudo-concorrência temos nós cá pela mesma via nos combustíveis e na electricidade, em que é uma fantochada pegada.
S.T.

Anónimo disse...

Não

Mais uma vez é preciso corrigir as enormidades de Jose ( a iliteracia e/ou a pesporrência ideológica são tramadas).

Mais uma vez se recomenda uma segunda leitura.

Uma correcção: o patronato caceteiro não é o "maior número". Quando os que são sugados por este tipo de patronato tomarem consciência que são a maioria, cai logo das suas pilecas tal patronato tipo.

Uma observação: a linguagem de Jose volta ao que era dantes, quiçá por efeitos de qualquer comportamento aditivo. Embora se saiba que quando se fala em resistência laboral lhe costuma saltar logo o verniz.

Este sabe bem onde assenta arraiais

Anónimo disse...

Já agora o vocabulário de Jose, nos antros de extremistas de direita que frequenta, para incentivar a "matilha" é este, parido há bem pouco tempo

"É tal a multidão de cretinos e medíocres que fazem da negação de evidências ou de tradições a sua oportunidade de se acreditarem inovadores e ‘progressistas’ e que têm acesso ao poder através da ‘corrupção’ partidária, que se requer toda a frontalidade e coragem para neutralizar uma tal matilha"..

"Corajoso" Jose. Anda aos caídos a invocar o rei de Espanha e a choramingar por uma rainha. Anda arrepanhado em busca de evidências e como não as encontra peleja pelas tradições. E quer "neutralizar".

Este tipo de vocabulário pode-se encontrar nos seus discursos claros e lúcidos com que ornamenta o seu quarto.

Paulo Marques disse...

Resta comentar que a privatização da ferrovia não correu bem em sítio nenhum. E a sua reversão é uma das muito boas razão para o Brexit, que provavelmente será desperdiçado a favor dos disparates monetários do costume.

Jose disse...

Pergunto-me o que levará uns tantos treteiros a não recordar que antes de haver mercado único havia quotas para as nossas exportações.

Anónimo disse...

"Pergunto-me o que levará uns tantos treteiros a não recordar que antes de haver mercado único havia quotas para as nossas exportações."

Mas, tovarich José, podem não haver quotas, mas há uma moeda sobreavaliada para a nossa economia que é um garrote comercial ainda mais terrível.

E não sente o cheiro a globalização queimada que vem Washington e Beijing?
Berlin está em lista de espera...
LOL
S.T.

Anónimo disse...

Nem uma José, nem uma.

A matilha assim designada não teme os abutres extremistas nem se deixa neutralizar

Anónimo disse...

"Mais vale ser um cão raivoso
dentes à mostra
estar sempre pronto a morder
e a dar resposta
a toda e qualquer podridão escondida
dentro da crosta
dentro da crosta das belas ideias
gato escondido de rabo de fora
dentro da crosta das belas ideias
gato escondido de rabo de fora."
(Sérgio Godinho)
S.T.
https://www.youtube.com/watch?v=xxGLWy4FNTU

Anónimo disse...

Atenção à directiva europeia, ou melhor ao diktat europeu sobre as "noticias falsas" que tenta suster a "terrível" vaga populista. Coartando pouco a pouco a liberdade de expressão pode ser que não se note. :)
Os europeistas vão continuar a poder fazer propaganda à vontade sem qualquer restricção. E mesmo assim levam abadas a seguir de abadas.

O artigo está aqui em italiano:

http://vocidallestero.it/2018/04/08/ft-bruxelles-prepara-un-giro-di-vite-sulle-fake-news-nei-social-media/

Ou aqui em inglês no FT com paywall:

https://www.ft.com/content/dbc722b0-3407-11e8-ae84-494103e73f7f
S.T.